Conferência Popular da Glória nº 416

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 13/08/1882

Orador: Ignácio Joaquim da Fonseca

Título: Combate naval de Cuevas

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Em presença de S. M. o Imperador e de numeroso auditório, realizou-se no dia 13 do corrente a conferência feita pelo Sr. Chefe da divisão Ignácio Joaquim da Fonseca, sobre o combate da esquadra brasileira em 12 de agosto de 1865 contra as baterias do passo difícil das Cuevas no rio Paraná.

O orador começou recordando quanto foi sensível para todo o Brasil a infausta notícia chegada de Montevideo à corte na terça-feira à noite, 8 do corrente mês de agosto; e declara o quanto foi penível e deplorável para si particularmente essa infausta notícia, visto como perdera o seu antigo mestre, um seu generoso amigo e incansável protetor.

Referiu-se depois à conferência do Sr. Senador Manoel Francisco Correia, proferida a 11 de junho do corrente ano, acerca da batalha naval de Riachuelo, aduziu a ela a circunstância dos fogos trocados nos dias 13 e 14 de junho entre a esquadra e as fortificações de Riachuelo; e assim também outros pormenores, e entre eles, a ocupação da cidade de Corrientes por um corpo de exército forte de 30.000 sob o mando do general Robbles – depois do combate de 25 de maio daquele mesmo ano; e a consequente perda de perto de 1.000 toneladas de carvão de pedra, enviadas de Buenos Aires por ordem do Sr. Almirante Tamandaré! Referiu, outrossim, que, devido a isto, foi constrangida a esquadra a mandar numerosas máquinas ao Chaco a fim de obter-se o necessário combustível com que se entretivessem os fogos das máquinas e se cozesse o rancho das guarnições; circunstâncias que aumentavam as dificuldades entre as quais o chefe da divisão Barroso aceitou a batalha de Riachuelo e conseguiu a esplêndida vitória que imortalizou o seu nome.

Descreveu como os Paraguaios fortificaram-se em Riachuelo, Mercedes e Cuevas, levando as suas avançadas até ao Saladeiro do Rincão de Soto.

Representou o combate da esquadra no dia 18 de junho do mesmo ano desde que despontou ela com as fortificações das barreiras de Mercedes às 11 horas da manhã; e mostrou como o mesmo chefe Barroso venceu de novo essa resistência forte dos paraguaios.

Recordou que, havendo uma praça morta nesse encontro, foram 12 feridos, e gravemente o capitão-tenente Bonifácio Joaquim de Sant’Anna, horas depois falecido a bordo do seu navio, sendo o seu nome dado depois a um dos melhores transportes da esquadra.

Disse que depois do combate de Mercedes ancorou a esquadra no porto de Chimbolal, onde foi reforçada por outros navios de guerra brasileiros e pelo argentino Guardia Nacional, reunindo-se também ali seus 13 a 14 navios de vela como transportes de munições.

Recordou os sofrimentos por que passaram ali as guarnições dos navios, em consequência da baixa do rio, que impossibilitava a subida dos transportes de mantimento, e também pela privação das rações aos proprietários do Saladeiro do RIncão de Soto, que nada fornecessem à esquadra; e como sobretudo sofreram desenvolvendo-se a bordo a peste da varíola.

Tratou da descida da esquadra no dia 9 de agosto e da demora ocorrida em Bella-Vista pelas súplicas das povoações dessa localidade e das famílias dos trabalhadores da banda do Chaco.

Apresentou depois a linha de combate da esquadra para forçar o passo difícil das Cuevas no dia 12 de agosto, citando que se trocaram os primeiros tiros às 9 ¾ horas da manhã.

Descreveu a posição do inimigo nas alterosas ribanceiras das Cuevas, mencionando a quantidade de artilharia, de fuzilaria e de estativas de foguetes Congrèves, avaliando o pessoal em 3.000 combatentes de acordo com as publicações no mesmo sentido. Mostrou as dificuldades do canal, citou a profundidade do rio, o calado d’agua dos navios e demonstrou quais as vantagens estratégicas e bélicas dessa fortificação.

Leu o relatório do chefe Barroso, datado de 13 de agosto, a respeito desse combate da esquadra, pelo qual se conhece também a excelente posição do inimigo, a formatura da esquadra e as circunstâncias da ação; bem como a perda do pessoal e os estragos dos navios, sendo que ficaram fora de combate 62 praças entre oficiais e guarnição, incluindo-se neles 23 mortos.

Descreveu a tolda da Magé em referência aos combatentes e à artilharia no momento do toque de postos e durante a ação; acrescentando que os outros navios de madeira passaram e bateram-se também com a gente necessária a postos e à descoberta: tendo se resguardado grande parte das guarnições de cobertas a baixo, segundo as ordens do chefe Barroso.

Apresentou em seguida algumas considerações e louvores a respeito da bravura dos oficiais e praças do exército e armada, e mostrou como os mais expostos são muitas vezes os menos sujeitos aos estragos dos tiros.

Fez o cálculo do número de tiros, só da artilharia do inimigo, a que esteve sujeito cada navio no espaço de 30 minutos ao alcance da artilharia, abstraindo do efeito das granadas e dos foguetes Congrèves.

Terminada a descrição do combate de Cuevas, disse que a esquadra foi ancorar no Rincão do Sóto.

Discutiu o combate de Cuevas sob os três pontos de vista – o balístico, o estratégico e o político, e tratou de provar o como ele em suas causas e efeitos é de tanta importância quanto foi o combate naval do Riachuelo.

Fez depois algumas considerações, sustentando que a divisão avançada da esquadra no rio Paraná esteve tão bem nas mãos do chefe Barroso, como nas mãos do mais afamado almirante, fosse ele um Nelson, Parker, Collignord ou Ferragut.

Estudou quais as seis qualidades essenciais para um general, além da perfeição dos sentidos, e mostrou como no chefe Barroso concorriam todos esses predicados.

Observou em seguida quanto foram infundadas as censuras feitas aqui, na rua do Ouvidor, em relação à demora dos movimentos da esquadra, ou as cortes de retaguarda, a bloqueios ou ciladas do inimigo. Afirmou que os brasileiros, felizmente, em toda a campanha de perto de cinco anos, não empregaram nenhuma cilada.

Estudou e demonstrou qual o argumento estratégico de mais eficácia desde pelo menos 0 1860 a 1882 e sustentou-o ilustrando-o com exemplos das batalhas de Napoleão Bonaparte, e de Horácio Nelson. Citou como reforço dessa sua apreciação um apropriado trecho de Victor Hugo a respeito da batalha de Waterloo a 18 de junho de 1815.

Transcreveu importantes ordens do dia do Barão do Tamandaré, elogiando o chefe Barão do Amazonas, os oficiais do exército e da armada e as praças de ambos os corpos. Transcreveu ordens do dia do almirante Barão de Inhaúma e mostrou como do estudo delas se pode bem deduzir a verdade histórica.

Convidou, quase ao concluir, aos seus camaradas da armada para que venham, da tribuna da Glória, discorrer sobre alguns dos doze ou quatorze feitos gloriosos ainda da esquadra de operações do Paraguai.

Concluiu pedindo desculpa pelos seus erros, agradecendo a benevolência do auditório e lendo por fim um trecho do relatório do ministro da marinha, o Sr. Barão de Cotegipe, contendo um honroso elogio aos oficiais da armada que souberam, em tão prolongada campanha, conservar as lições que receberam dos veteranos da corporação, tornando-se sempre dignos, como voluntários combatentes e hábeis navegadores, dos favores do Estado e da simpatia que encontram por toda a parte.”.  

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 61, n.240, p.3, 29 agosto 1882 (resumo). Capturado em 01 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_07/6303  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 416. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1021

 


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