Conferência Popular da Glória nº 417

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 20/08/1882

Orador: Francisco Marques de Araújo Góes

Título: Os micróbios como fatores de moléstias, cultura dos micróbios. A tísica pulmonar como moléstia parasitária

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“Em presença de S. M. o Imperador, no domingo 20 do mês próximo passado, ocupou a tribuna da escola pública da Glória o Sr. Dr. Araújo Goes que dissertou acerca do seguinte ponto: Os micróbios como fatores de moléstia: a tísica pulmonar como moléstia parasitária: cultura dos micróbios.

Em exordio apropriado ao assunto, o orador disse que, apesar de considerar-se o homem o rei da criação, não só os infinitamente grandes zombavam de sua realiza, mas também os infinitamente pequenos: mesquinhos organismos da podridão.

Até agora lutávamos improficuamente com eles. A dedicação e pertinência de um sábio por espaço de 25 anos mudaram as condições da luta, fazendo-nos crer que em próximo futuro debelaremos as legiões microscópicas dos invasores de nossa economia.

A humanidade aguarda impaciente a generalização dos trabalhos de Pasteur, relativos às moléstias contagiosas, os quais, neste particular, satisfazem cabalmente a suprema aspiração humana: o conhecimento das causas primárias. Toda a Europa admira e aplaude o artifício do gênio que criou a cultura dos microsimas, sua atenuação e vacinação por um agente mortífero, transformado em agente tutelar, como a vacina de Jeuner. Saudando o autor de grandiosa e fecunda conquista, o orador conclui seu exordio, dizendo que a gratidão gravará no coração da humanidade a inscrição: - Honra e glória a Pasteur, o Colombo do mundo dos micróbios.

Entrando no desenvolvimento da sua tese, o orador mostrou em rápidos traços a simplicidade crescente dos reinos animal e vegetal, à proporção que descemos do homem e da planta dicotyledonea para os protozoários e acotyledoneos; quando os vegetais e animais se tornam celulares, os dois reinos se tocam a ponto de ser impossível traçar uma raia divisória.

É nestes limites indecisos que encontramos os seres dúbios, denominados micróbios ou micosimas.

O característico mais saliente dos micróbios é a pasmosa e fatal rapidez com que se reproduzem. Em poucas horas a unidade se transforma em um exército e o exército em um número incomensurável ou pela segmentação ou por esporos. Há diferenças biológicas importantes entre o corpo do microsima e o esporo ou germeo. Ao passo que o primeiro tem um ciclo vital muito breve e é destruído pelo vácuo, ácido carbônico, oxigênio comprimido e pelo calor (60 a 70 graus), o germen resiste a todos esses agentes, e muitos só sucumbem na temperatura de 95 graus. Além disso, conservam suas propriedades malignas em estado latente por longo tempo.

Alguns micróbios têm tão pequenas dimensões, que, aumentadas 500, 700 e 1.000 vezes, são apenas perceptíveis.

São eles que se apoderam da matéria morta, nutrem-se de certos elementos, deixando os outros em liberdade para formarem novas combinações.

São ainda eles os fatores desses movimentos moleculares, chamados fermentação.

Presentes em toda parte, mas invisíveis, os parasitas microscópicos constituem uma força poderosíssima, desde que encontram as condições precisas para desenvolverem sua atividade vital.

Em seguida o orador tratou da alteração das substâncias orgânicas, combatendo a geração espontânea e dos processos experimentais, demonstrando a existência dos germens na massa atmosférica.

Se fervemos uma infusão orgânica na temperatura de 120 graus e a encerrarmos em um balão de Pasteur, submetido previamente ao calor de 150 ou 00 graus, sendo o líquido isolado do ar por uma rolha de algodão esterilizado igualmente pelo calor, poderemos conservar permanentemente a infusão inalterável.

Tirada a rolha 24 ou 30 horas, depois, o microscópio revelará maior ou menor número de microzimas, conforme as condições e localidades em que realizar-se a experiência. Se for feita em uma sala que acabar de ser varrida ou em um centro populoso ou ao nível do mar, serão os infinitamente pequenos muito mais abundantes; no campo e nas altas montanhas, porém, serão menos numerosos. É por esta razão que as matérias orgânicas se putrefazem mais rapidamente nas cidades e ao nível do mar do que no campo e nas grandes altitudes.

Não é somente no ar atmosférico que pululam os esporos: se introduzimos em um balão esterilizado um cabelo, algumas gotas de água comum, um fragmento de madeira ou de nossas roupas, os micróbios apareceram.

No meio desta geral infecção, os líquidos e tecidos internos dos animais são protegidos internamente pelas mucosas dos aparelhos respiratório e digestivo, e externamente pela epiderme.

Infelizmente esta proteção não é sempre eficaz e os seres microscópicos, por causas, ainda mal estudadas, penetram no íntimo de nossa economia.

Realizada a invasão, ou os micróbios encontram condições favoráveis a seu desenvolvimento, e multiplicam-se com a celeridade conhecida, determinando a moléstia, ou, ao contrário, as condições não lhes são propícias, e eles falecem e sem perturbar seriamente a saúde.

Nas quadras epidérmicas, vemos, frequentemente, numerosos casos comprovando esse modo de ver.

Na mesma habitação um indivíduo sucumbe à epidemia, outro adoece gravemente e restabelece-se, outro apresenta apenas ligeiros sintomas, outro, finalmente, nada sofre.

A resistência variável dessas pessoas aos germens depende, não só da luta que se trava entre eles e as células invadidas, como da natureza dos líquidos que banham as mesmas células.

Se na luta cabe a vitória ao organismo invadido, a saúde se restabelece após um esforço, mais ou menos enérgico; se, porém, ficam vitoriosas os microsimas, a morte é inevitável.

A composição química do sangue influi poderosamente para o êxito feliz ou fatal da moléstia.

Há doenças microbióticas comuns a muitas espécies animais; porém, outras há peculiares a cada espécie. Isto quer dizer que os micróbios que prosperam em certos líquidos são estéreis e inofensivos em outros.

Assim é que o micrococus da cólera das galinhas morre, introduzido no sangue do porco, do mesmo modo que o micróbio produtor da pneumo-interite deste último animal é inerte, injetado em um galináceo.

Notam-se inexplicáveis anomalias na mesma espécie: as vacas europeias são dizimadas pelo carbúnculo, ao passo que as africanas gozam de uma imunidade quase absoluta: o Dr. Kock, de Berlim, refere que o camundongo urbano é muito susceptível á septicemia do coelho, mas que o camundongo do campo é completamente refratário. Basta enunciar estes fatos para demonstrar a influência que exercem estes fatos para demonstrar a influência que exercem sobre a nossa organização a alimentação e o clima.

Como atuam os infinitamente pequenos sobre os fluídos e sólidos animais?

Dotados de uma exuberante vitalidade, carecem eles de abundantes materiais para nutrirem-se e atacam os elementos constituintes de nosso organismo, assimilando uns e libertando outros de suas antigas combinações; estes elementos em liberdade são extremamente nocivos e muito mais se tornaram, se por suas afinidades entrarem em novas combinações. A esta causa de profundas desordens podemos adicionar as secreções e a imensidade do número dos microzimas.

Estabelecidos estes preliminares, o orador escolheu um tipo bem definido de moléstia microbiótica e a ele filiou a tísica pulmonar, mostrando os laços de família que os une.

Muitos são os estados mórbidos de presumida origem parasitária; poucos, porém, tem sido bem estudados em todas as fases de sua evolução.

D’entre estes últimos destaca-se o carbúnculo, comum ao home e a muitos animais.

A doença é produzida por uma bactéria que insinua-se no organismo pelas vias respiratórias, ou pelo aparelho digestivo, ou ainda pela pele.

Se inocula-se uma gota de sangue carbunculoso em um carneiro, o animal morre em quatro ou cinco dias; se do cadáver extrai-se outra gota e repete-se a experiencia, reproduz-se o mesmo resultado, e assim por diante, quantas vezes se quiser.

Analisando o fato, o orador disse que a inoculação é uma dissolução da gota do líquido mórbido em uma massa de sangue relativamente enorme, dois a três litros.

Sem embargo, todo o meio interno tornou-se improprio para suas múltiplas e importantes funções e apto para transmitir no mesmo grau a malignidade da gota primitiva.

Foi um veneno animado ou inanimado o fator de tais alterações?

Antes dos estudos modernos concernentes à teoria parasitária ou dos germens, reinava na ciência, como soberana, a teoria do vírus, que consistia em atribuir a uma matéria especial a propriedade de determinar certos movimentos moleculares, modificando profundamente a composição química das substâncias orgânicas, postas em contato com ela, e comunicando-lhes a virulência.

Importa esta teoria conceder à matéria morta o atributo de manter a mesma energia em todos os graus de dissolução, o que é contrário à observação.

É efetivamente, sacrificamos um cão com uma gota de nicotina: se, porém, a dissolvemos em um litro d’agua, podemos dar ao animal quantidade cem vezes superior sem causar-lhe dano. Se desta dissolução tirarmos uma gota para um outro litro de líquido, nem vestígios encontremos do veneno.

Se em vez de nicotina e água, temos uma gota de sangue carbunculoso, dissolvido em um balão, com um litro de caldo de carne e depois de alguns dias passarmos uma gota deste primeiro litro para um segundo e assim por diante, até termos um centésimo ou milésimo, se inocularmos uma insignificante porção deste milésimo, reproduziremos o carbúnculo com todos os seus caracteres.

Qual a razão de tão notável diferença entre a gota de nicotina que perdeu sua ação toxica no primeiro litro e o sangue que a conservou indefinidamente?

A primeira, como matéria morta, não pode reproduzir-se, ao passo que a segundo estava povoada de seres vivos, as bactérias, que se multiplicaram, tanto no primeiro como no milésimo balão, conservando os seus caracteres específicos, graças às condições apropriadas do meio artificial em que viviam.

Conseguintemente, só um veneno animado pode explicar a transmissão das moléstias.

Apesar da evidência destes fatos espíritos esclarecidos ainda consideram a teoria parasitária uma hipótese, uma aspiração cientifica e preferem ater-se à do vírus, de provada insuficiência para explicar o contágio e, mais ainda, de uma esterilidade desconsoladora, durante séculos.

Com a teoria do parasitismo o miasma da antiga patologia, o princípio volátil, o agente do contágio, deixa de ser uma imagem para tornar-se uma realidade viva, que se pode ver, estudar, multiplicar, e até domesticar: a medicina se sente mais robustecida, porque sabe onde procurar as causas de certos estados mórbidos e combatê-las em seu próprio domicílio. A teoria dos germens foi, finalmente, um facho de brilhante luz que esclareceu as trevas em que se debatia extraviada, e, portanto, impotente, a velha patologia!

Passou depois do orador a tratar da tuberculose. O ano passado disse, publicou-se em Paris um livro com o pomposo e auspicioso título - Curabilidade da tísica pulmonar – cuja leitura causou-lhe uma grande decepção, porque seu ilustre autor, o Dr. Jaccoud é ainda adepto do vício de nutrição como causa da moléstia.

Não era permitida a um professor de Paris tanta ignorância, após as experiencias de Villemia e os notáveis trabalhos de Pasteur.

Há alguns anos o orador baniu da terapêutica dos tubérculos pulmonares os loock, xaropes e tisanas que só servem para entorpecer o tubo digestivo fonte de forças com que deve contar o organismo para lutar contra os parasitas invasores.

Assim procede, porque considera a tísica tão parasitária e contagiosa como as seguintes doenças: carbúnculo, varíola, escarlatina, septicemia experimental, cólera das galinhas, sarampo, pneumo-enterite do porco, hidrofobia, peripneumonia do gado vaccum, triquina, sífilis, peste do Oriente, podridão de hospital, tifo, febre amarela, cólera morbus, sarna, hidroemia intertropical, filariose, e até a febre intermitente e outras.

O orador é, portanto, ultra-parasitário, porque engloba moléstias reconhecidamente desta origem com outras que somente incorrem em suspeitas.

Parece mesmo haver um paradoxo em colocar a febre intermitente ao lado do carbúnculo e da varíola: da hidroemia intertropical e da filariose: é, unicamente na aparência, como mostrará, porque põe de parte a distinção entre contágio e infecção, modalidades de transmissão do mesmo fator que não infirmam a essência de fato.

Prosseguindo, cumpre-lhe pôr em relevo a transmissibilidade da tuberculose.

Se inocula-se em um cão algumas gotas de líquido tuberculoso, em prazo mais ou menos largo – o animal sucumbe tísico; se o cadáver extrai-se o humor patológico para inocular-se em outro cão, ainda este morrerá e assim indefinidamente.

Se em vez de cultivar-se o micróbio no corpo do animal, o cultivarmos artificialmente, tanto a primeira, como a milésima cultura provocará a moléstia com a mesma energia e fidelidade das gotas primitivas.

Mas, como já vimos, que somente o ser vivo pode conservar, pela reprodução, a mesma intensidade de ação, passando de um para outro veículo, quer seja o sangue ou um meio artificial, segue-se que experimentalmente a tísica pulmonar propaga-se como o carbúnculo, e, portanto, fica filiada ao grupo a que pertence esta última.

Foi somente a quatro meses que o Dr. Kock, de Berlim, publicou o resultado de suas experiencias, provando a natureza microbiótica da tuberculose.

O eminente médico cultivou o microzima que é um bacilo de uma e meia a três milésimas de milímetro de comprimento, imóvel, e apresenta frequentemente dois ou quatro esporo ovais e brilhantes.

Inoculado em cães, gatos, ratos, etc., o produto do cultivo, o Dr. Kock obteve, sem uma única excepção, a tísica perfeitamente caracterizada.

O bacilo tuberculoso aloja-se, muito geralmente, nos órgãos da respiração, não porque sejam estes os que primeiro encontram seus esporos quando penetram com o ar na arvore respiratória; mas porque tem preferência pelos tecidos pulmonares: tanto assim é que, feita a inoculação na pele, somente nos pulmões é que ela vai fixar-se e desenvolver-se. Muitos outros micróbios alojam-se com especialidade em certos tecidos. O vibrião da septicemia fixa-se particularmente nos músculos. Pode injetar-se todo o sangue de um animal hidrófobo ou um cão sem provocar-se a terrível nevrose: inoculando-se a saliva ou massa nervosa, ela faz explosão; ainda mais, se trepana se o crânio do cão em experiencia e põe-se em contato com seu cérebro uma porção da massa cerebral do animal falecido, a moléstia aparece, sendo abreviado seu prazo de inoculação que de 20 a 30 dias passará a ser de 5, 10 ou 15.

Ainda não foi visto o microzima da hidrofobia, mas já sabemos que deve ser procurado nos centros nervosos e na saliva.

Na peripneumonia do gado vaccum, o micróbio fixa-se nos pulmões; no pneumo-enterite do porco ainda nesses órgãos e intestinos; a bactéria do carbúnculo e o micrococus da cólera das galinhas habitam especialmente o sangue.

Se são exatos os trabalhos do Dr. Lasserau, na Argélia, e os de Klebs e Tomassi Crudeli, o micróbio da febre intermitente estabelece o seu quartel general no baço e no fígado, se assim for, os líquidos e tecidos do baço, sendo inoculados, devem forçosamente produzir os acessos da malária, como a substância nervosa e a saliva rábicas produzem a hidrofobia.

Conseguintemente, a febre intermitente está muito legitimamente ao lado da hidroemia intertropical e filariose: do carbúnculo e da varíola, todas produzidas por seres vivos, muito embora a introdução no organismo se faça pelo tubo digestivo, pelo aparelho respiratório ou pela pele, e apesar da diversidade no modo de atuar de cada um deles sobre os fluídos e sólidos vitais; uns são parasitas químicos ou fermentados como o do carbúnculo, outros parasitas por assim dizer mecânicos, que só sugam os líquidos nutritivos como o ankilostemo duodenal.

Mais tarde a ciência discriminará uns dos outros e organizará uma classificação natural.

Para provar-se que a malária é inoculável, como deve ser por virtude de sua origem microbiótica, dever-se-ia fazer a experiência em animal da mesma espécie, porquanto em razão das diferenças do meio interno nas diversas espécies animais, muitos micróbios morrem passando de uma para outra.

À vista disso, só o organismo humano se presta a essas exigências, salvo se os macacos forem susceptíveis ao bacilo malarioe.

É uma questão a ventilar.

Em que órgão residirá a microsima da febre amarela, do beriberi, e de tantas outras moléstias chamadas infecciosas ou zimóticas?

O orador ousa adiantar uma ideia, e é que deve-se procurar o infinitamente pequeno do tifo americano no fígado, víscera que apresenta lesões gravíssimas nesta pirexia. O parasita, fixando-se naquele órgão, não só altera seus líquidos e tecidos, como o impede de funcionar, tríplice causa da marcha rápida e, tantas vezes funesta da moléstia.

Depois de haver desenvolvido estar parte da sua dissertação, o orador passou a tratar da terapêutica da tuberculose.

Aparentemente, pode-se formular um tratamento do terrível flagelo de acordo com sua causa: na realidade, porém, é difícil. Se no laboratório destruímos os micróbios e seus germens com extrema prontidão, por isso que dispomos de venenos mortíferos como os ácidos fênico, tímico, salicílico, a resocina, o cloro, bromo, iodo, etc., no organismo, é muitas vezes impossível de obter-se o mesmo resultado, porque esses agentes não podem ser empregados em doses suficientes nos órgãos internos por serem também venenos de nossas células.

Um antigo médico dizia que a tisica seria curada quando se pudessem levar o remédio à sede do mal.

É este desideratum que a terapêutica moderna procura realizar com os aparelhos de pulverização e inalações usados em todos os hospitais da Europa e muito pouco vulgarizados aqui.

Se até certo ponto se pode contestar a penetração nas partes profundas do pulmão das partículas liquidas, não se pode deixar de admitir a inspiração dos vapores.

O ar, ligeiramente comprimido e saturado de substâncias antissépticas, como os vapores da mesma natureza são de grande utilidade no tratamento dos tubérculos pulmonares e tem disto muitos exemplos em sua clínica.

Se artificialmente uma pequena diferença no líquida da cultura determina a morte das microzimas, convém procurar uma substância que, sem prejudicar as nossas células, torne incompatível com a vida dos bacilos os líquidos e tecido em que vivem.

É, por ora, desconhecido o medicamento que satisfaça esta aspiração.

Sem embargo, alguns administrados, com a devida parcimônia, modificam muito favoravelmente o estado dos enfermos.

Sempre prefiro a medicação a mais simples composta dos princípios ativos, a fim de evitar as perturbações gástricas produzidas pela polifarmácia que, antecipadamente, dissipam o apetite,

Nesta mesma sala um médico estrangeiro propôs como preservativo da febre amarela um aparelho que, colocado na face, purificasse o ar, antes de entrar na arvore respiratória.

Esta ideia foi ridicularizada e apelidou-se o aparelho de – focinheira.

Acabo de ler no Jornal de Higiene que na Europa emprega-se atualmente uma espécie de focinheira para os tísicos, a qual realiza a condição principal do clima das montanhas – no tratamento da tuberculose – a pureza do ar – que, passando pelo algodão fênicado ou salicilatado, perde todos os germens, que introduzidos nos órgãos da respiração viriam agravar as lesões da moléstia.

Passando à última parte da sua tese, o orador expõe os dois processos de cultivo dos micróbios. O processo de Pasteur, que cultiva nos líquidos, e os do Dr. Kock, que prefere os sólidos.

Mostra os inconvenientes de um e de outro, propondo que, em vez de deixar exposta ao ar a superfície da massa inoculada, como faz o Dr. Kock, seja ela posta para baixo, em contato com a lâmina de vidro, como faz atualmente, por haver reconhecido ser impossível em nosso clima, a cultura proposta pelo ilustre mestre alemão. Esta modificação apresenta um inconveniente, que é isolar do ar a colônia que se quer criar, se for de micróbio aeróbio. Um processo misto, empregado pelo orador, remove este inconveniente: consiste em introduzir no balão esterilizado de Pasteur, que tem presente, a gelatina com soro de sangue. Dest’arte reúne as vantagens do método de Kock – meio sólido - às do método de Pasteur – contato  

Esta modificação é particularmente destinada ao cultivo do bacilo da tísica pulmonar, porque nem todos os microzimas se desenvolvem no meio sólido.

É da máxima importância a temperatura em que se faz a cultura: a bactéria do carbúnculo e o micrococus da cólera da galinha perdem toda a sua malignidade – na temperatura de 40º cent.: foi assim que Pasteur conseguiu atenuar os germens daquelas moléstias e transformá-los em vacina.

O orador termina o seu discurso, fazendo votos para que se descubra a vacina da febre amarela, do cólera morbus e de tantos outros males.

É lícito esperar, enquanto não se extinguir o quid divinum, que vivifica, o misto inexplicável de grandezas e baixezas chamado cérebro humano: é lícito esperar, porque cada minuto do nosso século nos dá um progresso ou uma esperança.

Quando a história tiver de julgar nossa geração, encontrará para remir os crimes de uns, as obras de outros que, como Pasteur, bem serviram à humanidade.

O orador foi felicitado pelo auditório.”.  

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 61, n.251, p.2, 09 set. 1882 (resumo). Capturado em 01 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/6380  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 417. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1022

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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