Conferência Popular da Glória nº 428

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 05/11/1882

Orador: Antonio Maria de Miranda Castro

Título: Estudos sobre o Banco do Brasil

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“O Sr. Dr. Miranda Castro realizou ontem, em presença de S. M. o Imperador, no edifício das escolas públicas da freguesia da Glória, a sua conferência, que teve por objeto – Estudos sobre o Banco do Brasil, com prova prática dos serviços que presta o mesmo Banco sobre o meio circulante e comercio das nações, inconvenientes do papel inconvertível e dos direitos de exportação.

Para provar como o Banco do Brasil transfere créditos e paga dívidas do comércio desta praça comercial em elevados algarismos, pelo meio seguro, cômodo e econômico dos cheques sobre os bancos, sem intervenção de moeda, senão a que existe nos cofres do Banco, refere que o Banco do Brasil, no ano bancário de 1851 a 1852, fez pagamentos e moveu capitais na importância de 384.450:358$637, valor de 23.475 cheques, que foram passados à sua tesouraria sendo 18.050 sobre contas correntes com juros, 5.425 sobre contas correntes garantidas.

Leu o seguinte período do último relatório do presidente do Banco do Brasil:

“Graças à prática de pagamento por meio de cheques sobre os bancos, meio o mais seguro, cômodo e econômico de transferir créditos e pagar dívidas, pode ser feito este movimento existindo na caixa do banco, em moeda corrente, quantia relativamente muito inferior. O uso em mais vasta escola desta prática, adotada em quase todos os grandes centros comerciais, terá lugar quando o selo fixo dos cheques for reduzido a tal valor, que facilite a circulação dos cheques por quantias menores de 100$; quando os cheques nominativos à ordem forem equiparados aos cheques ao portador; e quando a circulação de uns e outros for permitida fora das praças onde são passados. Com estas modificações todas encontrarão conveniência de ter sua conta corrente com os bancos contra a qual possam sacar por quantias pequenas, evitando assim o risco e trabalho de guardar e contar dinheiro. Será maior a economia do numerário e maior também a celeridade na circulação dos valores, com proveito geral das indústrias do país.”

Os serviços que presta o Banco do Brasil ao comércio desta praça comercial podem ser avaliados pelo movimento da caixa com a carteira comercial desse banco, que foi no último ano bancário de 1881 a 1882, na importância de 1 203 853:152$695, por entrada 604,200:171$724 por saída 599 652:960$971, e existindo o saldo de 4 547:230$753. Os seus depósitos de dinheiro a prêmio, e em contas correntes elevaram-se a 62,477:534$467.

Passando o Sr. Dr. Miranda de Castro aos inconvenientes do papel inconvertível, não pode deixar de considerá-lo como uma grande expiação por que tem passado todas as nações em maior ou menor escala. Não pode deixar de encarecer a gravidade dos males que ele inflige, acima da previsão da mais alta prudência, reserva e repugnância com que costuma ser emitido ou empregado. É de opinião que a mínima redução que se faça em seu algarismo terá efeito surpreendente. E se criará o vigor de ânimo com que será extinto.

Em relação aos inconvenientes dos direitos de exportação, explica o Sr. Dr. Miranda Castro a razão pela qual o Brasil é o único país que cobra tais direitos em escala considerável.

O Brasil tem uma superfície territorial igual à da Europa, que esteve sempre subdividida em um número maior de vinte Estados. Compreende-se que, em seus pouco extensos, mais ou menos povoados, e cultivados territórios, os Estados da Europa pudessem estabelecer impostos diretos sobre as rendas rurais, que permitissem não gravar com impostos onerosos de exportação os produtos de suas terras e indústrias.

Tão elevados foram sempre os direitos de importação da Europa, exagerados mesmo, algumas vezes, pela doutrina da balança do comércio, quanto não se encontra impostos de exportação em toda a Idade Média e História Moderna da Europa. E a nação inglesa concedeu, mesmo por alguns anos, avultados prêmios de exportação e restituição de direitos na reexportação.

O Brasil, pelo contrário, por ocasião da sua independência, exceto os terrenos auríferos da província de Minas, tinha em matas virgens a maior parte do seu vasto interior, inclusive a Serra dos Órgãos. E não lhe era possível cobrar impostos em terrenos incultos.

Correram os tempos, e pela tabela que o Sr. Dr. Miranda Castro oferece, possuímos hoje uma produção agrícola, que por mínimas avaliações, pode-se orçar em cerca de 800,000:000$. Um imposto de 4% sobre esta avaliação pode produzir cerca de 32,000:000$, que excede aos atuais direitos de exportação.

Os impostos de consumo de importação, sendo os que melhor se repartem pelas diversas classes sociais, segundo sua riqueza, porque os pobres compram algodões, e os ricos compram veludos e sedas, que pagam impostos, vinte a trinta vezes maiores do que os do algodão, todas as nações modernas fazem consistir suas maiores rendas nos impostos de consumo de importação nas alfandegas.

Em tais circunstâncias cumpre a cada país não sobrecarregar de impostos os seus produtos de exportação que tem de lutar com as tarifas das alfandegas. E parecendo que se protege as províncias centrais isentando-as de módicos impostos diretos, os direitos de exportação lhe são mais gravosos, impossibilitando-as de exportar muitos de seus produtos. Assim tem acontecido à província de Minas, que, por altos direitos de exportação, não pode exportar os algodões, que exportava outr’ora.

Segue-se o quadro aproximado da produção rural anual do Brasil, que apresentou o Sr. Dr. Miranda Castro.”.

Quadro aproximado da produção agrícola anual do Brasil
Café exportado e consumido 110,000:000$000
Açúcar exortado, 161,258,398 k. 26,000:000$000
Dito consumido no país, 1/5 de libra por dia e por pessoa, 22,000 000@ 66,000:000$000
Algodão exportado 7,000:000$000
Dito consumido no país 7,000:000$000
Goma elástica 11,000:000$000
Erva-mate exportada 2,000:000$000
Dita consumida no país 2,000:000$000
Fumos exportados, 16,893,804 k. 7,533:000$000
Ditos consumidos no país (dobro da exportação) 16,000:000$000
Milho, feijões, arroz, produção e consumo no país, 60,000,000 de alqueires 120,000:000$000
Madeiras de construção e marcenaria exportadas 5,000:000$000
Produtos florestais consumidos no país, e construções urbanas, navios e outras aplicações 25,000:000$000
Pedra, cal, terra e outros minerais 15,000:000$000
Bois: um boi para cada 10 pessoas por ano 50,000:000$000
Porcos, orçado o consumo do toucinho e carne 1/5 de libra por pessoa, e por dia, 22,000,000 arrobas 110,000:000$000
Animais cavalares, muares e lanígeros 20,000:000$000
600,000:000$000
25% de compensação das avaliações mínimas   800,000,000$000
Imposto rural com espaçadas revisões decenais, ou de maior período, sobre a base de 4% 32,000:000$000

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 61, n.307, p.2, 06 nov. 1882 (resumo). Capturado em 13 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/6788  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 428. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1033

 


Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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