Conferência Popular da Glória nº 442
Data: 17/06/1883
Orador: Amaro Cavalcanti
Título: A educação nacional em relação ao trabalho e à vocação própria da massa popular.
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Na presença de S. M o Imperador, realizou-se ontem a 442ª conferência, ocupando a tribuna o Sr. Dr. Amaro Cavalcanti, que dissertou acerca da “educação nacional em relação ao trabalho e à vocação própria da massa popular”.
Depois de algumas considerações tendentes a demonstrar a importância máxima do assunto, declarou o orador que aceitava a definição de que educação nacional quer dizer os “meios de bem preparar todos os indivíduos para as múltiplas necessidades da vida na família, na sociedade e no Estado”. Sendo, porém, o assunto vastíssimo para ser bem elucidado em uma breve conferência, força era restringir-se a examinar um ponto único: - a instrução popular em relação ao trabalho e à vocação do povo propriamente, - e passando então a considerar esse ponto, estabeleceu o fato de que, não obstante de todas as partes se elevarem vozes engrandecendo os benefícios da instrução em geral, era, todavia, verdade, que muita gente não acreditava deveras em tais benefícios, e que outros se mostravam apreensivos – de que a instrução popular não viesse prejudicar o progresso e as condições do trabalho; - que este era o modo de ver da aristocracia, a qual, segundo o orador, se compõe dos nobres e dos capitalistas; os primeiros porque – reputam que o destino da maioria de um povo é servir a poucos, e que o serviço do ignorante é mais dócil e obediente e portanto melhor adaptado para sua partilha natural na vida; os segundos, porque encaram a instrução geral como uma taxa enorme sobre o capital, visto que o homem instruído tem maiores necessidades, e por isso exige maior salário, e daqui a sua desvantagem para o trabalho e para a economia pública e privada.
Estabelecendo algumas proposições gerais, fundadas em princípios e fatos opostos ao primeiro asserto, o orador chegou à conclusão de que é a ignorância, e não o saber, que deprecia e obsta os progressos e resultados do trabalho e indústria nacional.
Além da falta de instrução popular adequada, apontou como principais fatores do atraso do nosso trabalho, a indolência do natural do país, - a ação deletéria de nossa política, no sentido de destruir ou inutilizar o que há de melhor entre nós, e finalmente os preconceitos errôneos, que depreciam o homem do trabalho, sem se atender a que é ele quem carrega a arca dos destinos da nação.
Passou depois a considerar a questão da instrução mais em acordo com o destino natural do povo propriamente; sustentando a opinião de que o ensino popular não deve ser dado como meio de criar ou suscitar ambições irrealizáveis no indivíduo, mas sobretudo, como preservativo contra as sugestões do orgulho e a vaidade das altas posições; pois que enquanto estas são excepcionais, e por isto só podem chegar para que poucos satisfaçam seus sonhos, está no poder de cada um, em qualquer posição da escala social, mostrar-se com dignidade, nobreza e reputação o que constitui os dons mais preciosos da vida social. Assim, um dos empenhos mais proveitosos a que se deve propor um plano bem estudado de instrução popular, consiste em operar a crença de que também há muita nobreza, dignidade e saber mesmo no homem que move a pá, a serra ou a charrua, e que todas as profissões são igualmente condignas; e porquanto, ainda naquelas que se reputam mais humildes, a inteligência e a moralidade são possíveis no indivíduo que as exerce.
E, pois, no dia em que, pela difusão do ensino, os trabalhadores dos campos, como os operários das cidades se mostrarem intimamente convencidos de que por sua dignidade e valor de homens, por seus sentimentos nobres e esforços é que se tem realizado os trabalhos mais úteis de que se honra a humanidade, e de que nada absolutamente é mais digno de honra do que o trabalho honesto; nesse dia, a nação terá toda a razão para dizer-se feliz, porque o mais poderoso elemento de grandeza e prosperidade terá certamente penetrado no amago da própria vida nacional.
O orador foi aplaudido e cumprimentado quando desceu da tribuna.”.
Localização
- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 62, n.168, p.1, 18 jun. 1883 (resumo). Capturado em 20 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/8167
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 442. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1047
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)