Conferência Popular da Glória nº 447

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 05/08/1883

Orador: João Manoel Pereira da Silva

Título: Conquistas e colônias de Portugal; primeiras explorações da Índia.

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“No domingo 5, às 11 horas da manhã, no salão do edifício da escola pública da Glória subiu à tribuna o Sr. Conselheiro Pereira da Silva, para continuar nas conferências acerca dos dois fatos mais gloriosos da história portuguesa, conquistas e colônias.

A sala estava cheia de povo, senhoras e cavalheiros; S. M. o Imperador se dignara assistir.

Começou o orador descrevendo a viagem de Vasco da Gama; ventos do norte o arrastaram com rapidez através das Canárias à ilha de Santiago de Cabo Verde; seguiu ao largo e descobriu a ilha de Santa Helena, onde fez aguada e lenha, no meio de escaramuças com negros. Gastou três dias em dobrar o Cabo da Boa-Esperança, batido por tempestades e mares turbulentos. Conseguiu-o, e tomou rumo de nordeste. Levantaram-se superstições e sustos na equipagem, com a queda de um retábulo com a pinta do santo, cujo nome tinha a capitania; temeu Vasco revoltas de marinheiros, que, desanimados, exigiam voltar para Lisboa. Custou a curvá-los, empregando energia, sagacidade e castigos. Por fim, abordou os Ilhéus Chãos, onde se limitara a viagem de Bartholomeu Dias, e fez queimar o navio de transporte, passando gente e carga para os três melhores, porque ele lhe servia de embaraço. Prosseguindo, deixou o mar tenebroso, e novos céus azulados, estrelas fulgurantes, bonanças de águas, ventos regulares, trouxeram a esperança aos corações dos mareantes. Divisando-se a luz que chama-se S. Pedro Gonçalves, pensavam ver o santelmo do reino, e os xabregas se lembravam das procissões com tochas, damas, folias, musicas, cânticos, corridas de flores e outras, terminando por ceatas nos pomares e hortas. Houve quem achasse a cera verde que o santo lançava nos sextos das gáveas, e ai de quem não acreditasse no milagre. Daí por diante deixou-se Gama guiar pelas cartas e rumos que, do Egito, remetera Covilhã a D. João II, acerca dos mares que separam Asia e África. Indo correndo a costa africana, descobriu Inhambane, e tocou Quilimane.

Desde o Senegal se não descobrira senão negros; em Quilimane entre eles muitos de cor esbranquiçada, como os berberes da África Septentrional e os Egípcios e alguns Árabes, a mercadejar; notou-se ouro cobrindo as vestes longas e pedras preciosas, e já os portugueses pensavam estar na Índia. Prosseguindo entraram em Moçambique, onde o mesmo espetáculo divisaram e em mais larga escala, posto a povoação fosse pequena. Conhecidas as traças contra os portugueses, continuaram e relaxaram em Mombaça, tendo passado pelas alturas de Dofala e Ofir de Salomão e Madagascar, conhecida pelos Gregos pelo nome de ilha da Lua, sem as terem avistado.

Mombaça mostrou-se mais importante que Moçambique, e aí foram patentes as traições contra Vasco, pelo que tomou rumo de Melinde, onde bem acolhido encontrou amigo no Rajah: assim a costa oriental da Africa estava dividida entre chefes independentes, e pretos mais civilizados que os da ocidental, porque comerciavam com Árabes, Turcos, Egípcios, Afegãos e Asiáticos: tinham povoações com ares de cidades ao passo que os indígenas do lado da Mina, Zaire, Congo, Senegambia, Cabo eram perfeitamente selvagens e brutos. Melinde patenteava um aspecto mais asiático, pagodes, riquezas, luxo. Aí soube Vasco como deveria melhor dirigir-se, e endireitou para o Indostão no Calécut, onde aportou depois de dez meses e doze dias de viagem desde Lisboa.

Aí ficou Vasco deslumbrado com a magnificência dos edifícios, o viçoso do arvoredo, o esplêndido da natureza, a abundância de riqueza, a variedade do comércio feito por toda a casta de povos, de diversos tipos e cores. Ali vinham as pedras preciosas, os perfumes, as tapeçarias, a pimenta, o cravo, o ouro, a prata, as sedas e alcatifas da Pérsia, Arábia, Coromandel, Ceilão, China, Sumatra, etc.

Vasco requereu ser apresentado as Rajah, para lhe entregar a carta de D. Manoel, dirigida a Preste João das Índias. Obteve, mas não agradou ao Rajah, que se apelidava Camorim, por mesquinhez de presentes e por intrigas dos comerciantes estrangeiros, que, monopolizando o comércio, temeram-se da concorrência dos portugueses. Traições se maquinaram, e prenderam-se entre terra dois Portugueses que guardavam uma feitoria de mercadorias que Vasco estabelecera. Vasco agarrou doze dos principais da cidade e ameaçou o Camorim, que mandou-lhe entregar os dois portugueses. Pretextando o roubo de fazendas portuguesas, entregou só seis, e voltou para Portugal.

Já se havia perdido a esperança de volta do Gama por mais de dois anos de ausência. Cansara-se o rei de ir do alto do Cintra devassar o horizonte em procura da não partida para a Índia. Não se admira, pois, que excelentemente fosse o Gama acolhido e honrado por D. Manoel; tratou o rei de enviar nova expedição, não já para descobrir, mas para conquistar e abrir comércio, posto que pelo Gama não conseguisse saber notícias do legendário Preste João e nem do emissário Cavilhã que se perdera no Oriente. Três navios com 1.500 homens, soldados e equipagem, formaram a frota confiada a Pedro Alvares Cabral, para continuar a empresa de Gama, e que partiu em 1500 para a Índia.

Afastando-se das calmarias da África, desde que passou das ilhas de Cabo Verde, segundo os conselhos de Vasco, descobriu novas terras ao Ocidente; era o Brasil, de que tomou Cabral posse em nome d’el-rei de Portugal. Destacando um dos navios para Lisboa para dar a nova, seguiram os doze, e sobraram o Cabo, passaram o mar tenebroso, e endireitaram para Melinde. Tratadas boas relações com o Rajah, dirigiu-se para Calecut. Já não podia ser considerado pelo Camorim com pirata, como o fora Vasco, e sim como embaixador. Entregou-lhe os seis fidalgos que Vasco trouxera para Lisboa, mandou-lhe cartas particulares de D. Manoel para o Camorim, presentes de valia, e pediu audiência. Recebido pelo Camorim em seu palácio, descreve o orador o luxo, o cerimonial, as riquezas deslumbrantes da corte. O régulo rodeado de 200 mulheres nuas da cintura para cima, de faquires e naires, e de tatuar ministros e escrivães, de dançarinos e bobos. Brilhantes nas orelhas, nas pernas nuas e nos braços, safiras, esmeraldas, rubis, topázios, tudo cegava a vista, e espantava os portugueses. O Rajah mascava betel, erva odorífera, e os pajens que davam água perfumada para o molhar, e a copa para a limpeza. Em árabe se tratou a paz e amizade, foi concedido a Cabral um estabelecimento para feitoria e depósito comercial em local designado.

Quando as coisas pareciam correr bem, os mouros, que assim chamavam os portugueses a todos os estrangeiros da Arábia, África, Etiópia, Egito, Asiáticos, Persas, Turcos e Afegãos, começaram a intrigar contra eles, temendo a concorrência mercantil. Fizeram um levante, assaltaram a feitoria portuguesa, mataram cerca de 50, e apenas se salvaram uns 20 fugidos para bordo.

Cabral resolveu vingar-se. Apreendeu logo 10 navios surtos no porto, passou o fio da espada os prisioneiros e exigiu a expulsão de todos os mouros. Não o admitindo o Rajah, posto lhe desse satisfações, bombardeou a cidade e lançou-lhe fogo. Seguiu então, assim vingado, para Cochim, onde fez pazes com o Rajah de lá, e aí estabeleceu feitoria; recebendo carga de pimenta, canela e especiarias em Cananor, voltou para Lisboa, chegando apenas com sete navios e 1.200 homens, havendo o mar e a guerra devorado cinco galés e 300 vítimas.

Soube-se então em Lisboa o que era a Índia, e o que se podia lá alcançar em comércio e conquista desfez-se a lenda do Preste João, e D. Manoel ordenou terceira expedição, tendo por chefe de novo Vasco da Gama, que partiu de Lisboa em 1502.

Ardia Vasco do furor da vingança; e apenas chegado ao golfo da Arábia, mostrou sua crueldade; avista uma nau árabe com cerca de trezentas pessoas a bordo, mulheres e homens, velhos e crianças, que vinham de peregrinar no tumulo do profeta, em Mecade; tomá-la, saqueá-la e queimá-la inteira com todos quantos estavam à bordo, foi sua primeira façanha. Chegado à Calecut, repetiu a exigência de expulsar todos os muçulmanos; não atendido, aprisionou, destruiu navios, matou-lhes as equipagens, incendiou a cidade, e seguiu para Cochim. Carregando navios para Lisboa, e deixando alguns ao mando de seu sobrinho Sudré para defender o Rajah de Cochim e correr os mares, voltou para o reino.

Nova expedição partiu do Tejo para a Índia em 1503 e nela iam Nova, Affonso de Albuquerque e Duarte Pacheco. Sudré abandonou o Indostão e preferiu piratear no mar arábico, mostrando assim que a pirataria e roubo deviam ser preferidos, porque o valor dos bens apreendidos se dividiam de parceria com a coroa e tripulações. Lá morreu assassinado. No entanto, o Camorim de Calecut atacou o Rajah de Cochim, e expulsou-o da capital, quando chegou a quarta expedição. Albuquerque voltou para a Europa e Pacheco ficou incumbido de auxiliar o régulo de Cochim.

A Índia se dividia em governos independentes, e vários eram os que dominavam desde o golfo pérsico e o rio Indo até a ponta de Malabar, onde jaz a ilha de Ceilão, conhecida pelos gregos pelo nome de Taprobana. Haviam espalhadas pela costa do Indostão muitas importantes cidades: Chaul, Granganor, Calecut, Cananor, Cochim, Diu, Colão, etc., pertencendo a diversos Rajahs.

O orador reconta as proezas, valentia, astúcia e ciência de Duarte Pacheco. Era um leão nos combates, de uma bravura sistemática e quase temerária. Restituiu o régulo de Cochim à sua capital, rebateu e destruiu esquadras e exército de terra do Camorim de Calecut, e criou um terror do seu nome e do dos Portugueses que nem ousavam mais os indígenas arcar com portugueses, que lhes pareciam homens de outra espécie. No entanto chegaram mais expedições de Portugal, e Pacheco voltou para Lisboa pobre porque desinteressado, e glorioso porque valentíssimo. Teve por paga o governo da Mina, de onde o mandou vir logo el-rei por intrigas e calunias, acorrentado e preso, e morreu desgraçado em um hospital. Aqui lê o orador um trecho de Damião de Góes, pintando a ingratidão dos reis e fazendo observações filosóficas.

Mas a situação da Índia tornava-se anárquica, cada chefe de navio se tornara pirata, assassinava, incendiava, roubava, e o domínio português não tardara em desmoralizar-se e desconceituar-se.

Tratou logo D. Manoel de formar aí um governo estável e sistemático. É verdade que só queria pimenta, canela, especiarias, pérolas, diamantes, mas para isso mesmo carecia de estabelecer ordem nas expedições e governança. Escolheu para vice-rei da Índia a D. Francisco de Almeira, honrado na sua corte pela perícia e sisudez, família e honestidade, e fê-lo partir para uma esquadra, instruções e poderes extraordinários.

Na próxima conferência, o orador prosseguirá no assunto, e desce da tribuna no meio de aplausos gerais e felicitações do auditório.”.

Localização

- Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, Anno 62, n.224, p.1, 13 agost. 1883 (resumo). Capturado em 20 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/8543

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 447. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1052

 


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