Conferência Popular da Glória nº 458.1
Data: 21/10/1883
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: Conclusão do estudo histórico sobre as conquistas portuguesas: governos portugueses nas Índias, D. João de Castro; decadência e ruína; perda final, diante dos novos invasores ingleses e holandeses.
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Subiu ontem à tribuna das conferências da Glória o Sr. Conselheiro Pereira da Silva, estando repletas as salas de espectadores e senhoras e na presença de S. M. o Imperador.
Depois de expor a situação da Índias, à morte de Affonso de Albuquerque, tão abandonada foi a política mercantil e fenícia de D. Francisco de Almeida, como a imperialista e romana de seu sucessor; a anarquia rebentou por toda a parte; a pirataria, o saque, a corrupção infiltraram-se no amago da sociedade; na própria capital Goa, fundada por Albuquerque, havia lutas, conflitos a mão armada; vendiam-se empregos, comandos de navios e de fortalezas e feitorias, porque não se tratava senão de roubar; gemiam os pobres indígenas sob o peso das violências e tributos. Roubava o governador, roubavam os subalternos, até os soldados e marinheiros.
Nuno da Cunha, apesar da sua bravura, não pode tomar Diu, depois de bombardeá-la, porque a bordo de sua esquadra, a maior das Índias até então, havia mais mulheres, escravos e fâmulos que militares. Conseguiu, apenas, com jeito e brigas intestinas dos indígenas, fundar uma fortaleza. Martim Affonso de Souza gabava-se das somas que recebia de luvas por seus atos; retirava para si a melhor parte do que pertencia ao rei, declarando que podia esconder o total, e, portanto, tomava só uma quota. Vasco da Gama, mandado por D. João III, como vice-rei, apenas esteve três meses e morreu logo na Índia, sem ter podido por cobro aos crimes e atentados dos portugueses. Foi escolhido D. João de Castro, sábio astrônomo, marítimo experiente, autor de roteiros, dado aos estudos clássicos, homem santo e virtuoso, e por isso mesmo afastado de audácias e castigos.
O orador descreve os feitos honrosos do vice-rei, o seu caráter índole e serviços. Relata anedotas divertidas a respeito dos costumes das Índias, e mostra que apesar de se acharem na Ásia ao mesmo tempo três varões honestíssimos, João de Castro, Antonio Galvão e Francisco Xavier, não se conseguira moralizar as populações de aventureiros, que só queriam enriquecer-se e locupletar-se. Pinta a primeira viagem à volta do mundo pelo português Magalhães, às ordens de Carlos V da Espanha, e sua morte em uma das ilhas Molucas, depois de ter descoberto e passado o estreito, que guardou seu nome na América, e seguido pelo mar Pacífico para a Ásia, voltando os navios à Europa pelo Cabo da Boa Esperança.
Mostra os serviços prestados à civilização pelos portugueses, dando notícia e conhecimento das Índias, da língua sânscrita, da literatura hindu, citando Barros, Castanheda, Henrique Henriques, Mendes Pinto e outros escritores. Morrera em Goa João de Castro, e a Índia portuguesa, aliás estendendo-se desde o Mar Vermelho até a China, compreendendo as Ilhas do Ceilão, Molucas, Java, Sumatra, as ribas do Ganges, o Pegú, etc., malbarateada e explorada violentamente, vai se crescendo esses ódios contra os portugueses, em vez de lhes ser simpática.
Quando por morte do rei Henrique, a Espanha invadiu e curvou a Portugal, anexando-o, os ingleses e holandeses em guerra com a Espanha, não tiveram escrúpulos de ir às Índias e atacar possessões portuguesas, considerando-as espanholas. Espanha abandonou-as, e ao rebentar a revolução de 1640, que restituiu à Portugal a sua independência, achou-se apenas com meia dúzia de presídios e feitorias na Índia, tendo-se apoderado de todo o seu antigo e vasto império os holandeses e ingleses. Desde então, faltando as Índias a Portugal para sustentar-se, virou-se para o Brasil, e não como conquista, como fora a Índia, mas como colônia, o Brasil começou a alimentar Portugal, que por si só e com recursos europeus se não podia manter.
Assim, as conquistas foram para os portugueses gloriosa epopeia, e durante um certo período deram ao reino riquezas, que desapareceram como o fumo. Nada ficou de honra para Portugal, por dois séculos quase sustentou a mãe pátria, e emancipado, conserva intemerata e gloriosa a fama de Portugal, guardando-lhe a raça, a língua, as tradições e glória para no futuro formar a página mais brilhante da sua história. O orador ao descer da tribuna foi estrepitosamente aplaudido e felicitado por todo o auditório.”.
Localização
- Gazeta de Noticias, Anno IX, n.295, 22 out. 1883. p.1 (resumo). Capturado em 24 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/103730_02/6026
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 458.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1068
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)