Conferência Popular da Glória nº 462
Data: 18/11/1883
Orador: João Manoel Pereira da Silva
Título: A importância e influência do gênio de Francisco Manoel do Nascimento, Philinto Elysio, sobre seu tempo e sua nação.
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Ontem fez o Sr. Conselheiro Pereira da Silva a sua anunciada conferência na escola da Glória. S. M. o Imperador achou-se presente, e tão grande número de senhoras e senhores que as salas estavam atopetadas.
Deseja o orador referir e avaliar a importância e influência do gênio de Francisco Manoel do Nascimento, Philinto Elysio, sobre seu tempo e sua nação. Necessita, porém, de pintar a sociedade da época. Nascera Philinto em 1734; quando Pombal caiu contava pois, 43 anos, e era conhecido como poeta e escritor de talento, posto que muito detestado, por porquanto ele fustigava com suas obras, e proclamava o culto do clássico como único tipo do belo e do sublime, ao passo que exigia que a língua conservasse os caracteres e ademanes do século XVI, abandonados os molegismos que corrompiam.
Com a morte de D. José e queda de Pombal levantou-se a reação contra a política e governo que findava. Uma rainha exclusivamente dedicada à devoção, mística e supersticiosa, entregou tudo aos homens do altar e da aristocracia. A rainha readmite jesuítas no reino, apesar de abolida a companhia, posto que como indivíduos. Restitui isenções e privilégios à cúria romana. Revoga as ordens que proibiam entrada de egressos em conventos, procissões e terços nas ruas. Proíbe que mulheres representem em teatros. Manda admitir no calendário Santos Loyola e Bórgia. Eleva Santo Antônio ao posto de major ajudante. Estabelece nichos de santos com velas sempre acesas nas salas do palácio.
O rei é um infeliz fanático, e os ministros, com excepção de Martinho de Mello, dissipadores e ignorantes. Tudo, pois, voltou ao antigo estado, ao tempo quase de D. João V, costumes, tendências, modas, espírito e ideias, e em todas as classes da sociedade. Aboliram-se as Companhias do Maranhão e Pernambuco, proibiram-se certas indústrias no Brasil, particularmente a ourivesaria, e o reino tornou-se um anacronismo na Europa.
Havia, entretanto, uma face agradável e bela no quadro, e era a situação das ciências e letras, ainda devidas ao impulso de Pombal, à reforma da universidade e dos estudos por ele efetuada, e que, produziam excelentes frutos, apesar da degradação de governo e nação. Apareciam, pois, sábios como Avelar Brotero, Anastácio da Cunha, Conceição Velloso, Rodrigues Ferreira; literatos como Correa da Serra, Ribeiro, Paschoal, Bispos de Viseu e Elvas, Antonio de Moraes, João Pereira Ramos, Mello Franco, etc.; poetas como José Basílio, Durão, Tolentino, Philinto, Souza Caldas, Claudio, Maximiano Torres, e mais tarde, Gonzaga e Bocage. À antiga Arcadia de Diniz, Garção e Quinta substituira a nova Arcadia, e, fundou depois a Academia Real de Ciências para suceder à da História, já desaparecida.
Mas a inquisição, que não podia mais levantar fogueiras nem praticar tormentos, e se tornara tribunal político, levantou também a cabeça, para reganhar seu antigo brilho, e desaparecido Pombal, reagiu contra a heresia e particularmente contra os homens de letras, porque assim pensava voltar à antiga predominância.
Condenou, fez aparecer em autos de fé, e prendeu nos cárceres Anastácio da Cunha, Avelar Brotero, Abreu, Mello Franco, Antonio de Moraes e Bocage. Mandou prender Hypolito e Philinto. Estes, porém, fugiram para o estrangeiro, mas seus bens foram sequestrados.
Durante o exílio de Philinto, o orador o acompanha em sua vida até a morte em 1819 em Paris. De lá escreveu ele suas melhores obras, e de lá influiu poderosamente sobre seus contemporâneos. O orador não o encara como tradutor. Não dá apreço a traduções; por melhores que sejam, não passam de cópias. Poeta deve ser original, ter gênio, estro próprio. O pensamento é do poeta, não a tradução do pensamento.
Quando às suas obras originais, muitas são e em gêneros variados, e essas são primores. É muitas vezes duro na frase, emprega vocábulos obsoletos, latiniza exageradamente a língua e metrifica com aspereza. Mas é o maior dos poetas portugueses no século XVIII.
O orador fez considerações sobre a poesia e a literatura em geral, e lembra que para glória de Francisco Manoel concorreram estrangeiros como Britterweck, Sismondi e Denis, elogiando-o, Villemain chamando-o um dos primeiros poetas do seu tempo e Lamartine dirigindo-lhe uma ode sublime em que o apelida glória do século.
Reconta um culto que o Imperador presta à sua memória, tratando de anualmente fazer limpar e guardar a lápida do local onde descansa o poeta, no Père Lachaise, em Paris, e termina em meio de felicitações do auditório.”.
Localização
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, Anno 62, n.322, p.1, 19 nov. 1883 (resumo). Capturado em 24 abr. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/9223
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 462. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 19 mai.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1072
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)