Conferência Popular da Glória nº 482.1

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 03/08/1884

Orador: Domingos Carlos da Silva

Título: Do cholera-morbus epidêmico: considerações históricas, e profiláticas.

Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra

Texto na íntegra

“Meus senhores. Não são tranquilizadoras as notícias que, desde 20 de junho, nos são transmitidas pela agência Havas, sobre a existência da choleramoibus em algumas cidades do Mediterrâneo.

O primeiro telegrama da invasão de Toulon foi do dia 20, e 30 já se anunciava a moléstia em Marselha, e 9 de julho em Aix, e 23 em Ailes, e logo depois em Spezzia.

Pelos jornais médicos recebidos de Paris, sabe-se que o mal desenvolveu-se na primeira dessas cidades a 14 de junho, dez dias depois da chegada do transporte la Sartre, procedente de Saigon, onde grassava o cólera na ocasião de sua partida, sucumbindo a esta moléstia dois marinheiros daquele navio.

Em Marselha a epidemia declarou-se a 27 de junho, sendo o primeiro afetado em liceista de Toulon, licenciado.

O aparecimento inesperado do mal em Toulon deu lugar a dúvidas.

O célebre Dr. Fauvel, autor de uma das melhores obras sobre a prophylaxia do cholera asiático, e membro da notável conferência internacional de Constantinopla, achava-se encarregado do serviço de defesa sanitária, nos portos franceses do Mediterrâneo, contra a invasão do sinistro viajante das Índias.

Logo aos primeiros casos, o Dr. Fauvel foi interrogado sobre a natureza do mal, se tratava realmente do cholera-nostras.

Mas o número de casos aumentava de dia para dia; os médicos de Toulon reconheciam perfeita identidade das manifestações mórbidas com as da moléstia de 1865, importada da Índia.

O Dr. Brouardel foi encarregado de investigar os factos, e no dia 1 de julho se desempenhou dessa tarefa, anunciando a Academia de Medicina de Paris, ante um numerosíssimo auditório, ávido da verdade, que o princípio se havia inclinado a opinião do Dr. Fauvel, mas, logo depois, convencer-se de que se tratava do cholera asiático.

Entre nós, porém, a questão há mais tempo se achava resolvida; pois que, desde o primeiro telegrama de 20 de junho, ninguém duvidava da verdadeira natureza do mal.

Quanto a mim, já há dois anos que sei que uma quarta epidemia de cholera começou para o mundo inteiro, se, porventura, não foi habilmente combinado o sistema de defesa, contra um inimigo tão traiçoeiro. Obstado eficazmente em sua marcha e extinto no Egypto, ele não perdeu a esperança nem na ocasião, e emigrou diretamente de seu berço, isto é, dos pontos primitivamente afetados.

A questão da Academia de Medicina de Paris, assim como o nosso modo de proceder diante desta melindrosa e difícil emergência, se elucidará facilmente...

A moléstia teve sua origem em datas imemoriais. Mostrou-se sempre endemicamente em várias localidades as margens do Ganges; mas nunca delas emigrou até o ano de 1817 e nem se revelava sob a forma epidêmica. No segundo semestre de 1816 isto se deu, e apresentaram-se epidemias de cholera em Bunumputer e n’um braço do Delta do Ganges. D’ali, subindo a corrente do caudaloso rio, mostrou-se em Patna, saindo pela primeira vez fora de suas circunscrições habituais, se estendeu a Calcutta, a Jessore e d’aí em todas as direções, sem poupar qualquer das localidades em sua passagem.

Isto deu-se em 1818, e já nessa época, aparecendo a moléstia em Bombaim, reconheceu-se que o facto da entrada de um doente n’um foco populoso era bastante para uma explosão epidêmica.

O cholera mostrava-se então insaciável de devastação e de horrores, e empreendeu mais longa viagem.

Em 1820 estava ele na China, e estendia-se ao Arquipélago das Filipinas. Não poupou Java.

Ao mesmo tempo manifestações epidêmicas se notam para o lado de norte e de oeste.

Em 1821 foram atacadas as cidades de Mascat e de Bagdad. A moléstia talava, pois, a Pérsia e a Arábia. O Golfo Pérsico franqueado, estendeu-se o mal em diversas direções e localidades, onde tornou-se endêmico.

Em 1828, porém, como se fosse um exército, dividiu-se em duas colunas invasoras. Uma surgiu ao norte e foi ter as margens do Mar Caspis, e outra, na direção do oeste, atravessou os desertos, na direção da Syria e ameaçou a Europa, acampando em Alexandria e Antioquia, à margem do Mediterrâneo.

A primeira coluna, senhores, se encaminhou rápida sobre a Europa pelas fronteiras russas.

Atacou em 1829 Orenburgo, e no fim do mesmo ano chegou, por um outro caminho, a Astrakan.

Aí nada mais impede a sua marcha, encontra uma corrente caudal diante de seus passos, ótima via de transporte para a moléstia, e alonga o Valle do Volga, alcançando Moscou em princípio de 1830. Assim, transpõe, a menos de 60 dias, a distância de 350 léguas, que media as duas cidades russas.

Não para em Moscou e se estende a diversas cidades da Rússia, que são devastadas ainda em 1831, quando as operações militares contra a Polônia facilitaram a invasão do cholera nesse país.

A Alemanha sofre igualmente, sobretudo a cidade de Berlim; a Áustria não é poupada.

Em 1832 surge a moléstia em Londres, após uma longa viagem, em que o seu itinerário é marcado por novas hecatombes.

No mesmo ano, e sem a menor demora, atravessou o passo de Calais, e caiu com grande furor sobre Paris. Daí caminha sem que se detenham os seus passos, e tala o território francês em todas as direções.

Navios procedentes da Inglaterra levam o cholera a América sendo Quebec o primeiro ponto afetado em 1832.

Epidemias declaram-se também na Hespanha em 1833 e 1834, na Itália em 1836 e em Munich no mesmo ano, voltando a Berlim em 1837, onde extinguiu-se o flagelo, depois de fazer ainda grande número de vítimas.

Aí, completavam-se 17 anos de excursão do maldito emigrante fora de seu berço, e sete anos de perseguição na Europa.

A segunda sortida, senhores, do cholera asiático realizou-se em 1846, isto é, nove anos depois de tranquilizada a Europa com o desaparecimento da primeira epidemia.

(...)

Ella rompe de Indus e do Afeganistão. A sua marcha é mais rápida e decisiva.

Em janeiro de 1847 já está em Meca. Foi rápida em atravessar a Pérsia e a Turquia asiática, atingindo sem custo a cadeia do Cáucaso, que é contornada, e segundo Pirogoff também transporta em suas diversas estradas, para precipitar-se com verdadeira raiva sobre Moscou, em setembro de 1847. Diferentes localidades russas sofreram nesta ocasião.

Mas em 1848 é que se revela o grande poder de propagação do mal. Em julho chegou a Berlim; atingiu Hamburgo e Londres, em setembro do mesmo ano.

Da Inglaterra o cholera transportou-se para a América, como da primeira vez; mas, atravessando o Atlântico, preferiu Nova-York e Nova Orleans. Na direção de Paris retarda ele a sua marcha, mas chegou afinal em março de 1849.

D’ali espalhou o seu manto lutuoso sobre o resto da Europa, que foi completamente envolvida. Por esse tempo sofria também o Egypto.

Em 1851 o mal parece dar trégua, mas para atacar novamente o com mais intensidade a Polônia em 1852.

Em 1853 ele partiu da Rússia, onde haviam ficado focos mal extintos, e com as operações militares da guerra do Oriente despertaram-se tendências generalizadoras. O cholera que sempre, e em todos os países, se tem mostrado inimigo das guerras e desorganizador dos exércitos, nesta época desprendeu-se das peias, e atirou-se inexorável sobre os países beligerantes. A França, principalmente, não foi poupada. As suas tropas eram atacadas até em caminho para o teatro da guerra, do que concluiu-se que o cholera foi levado aos acampamentos da Criméia pelo exército francês.

Em 1855 ainda se achava a moléstia na Europa. Hamburgo, Munich e Vienna tinham sido atacados; assim também a Itália e a Hespanha. Daí passou ela ao norte de Portugal, e atacou a cidade do Porto, donde saiu a 15 de abril, em plena epidemia colérica, a galera Defensor com destino ao Pará, conduzindo a seu bordo 322 pessoas, das quais 288 eram colonos.

O cholera manifestou-se nesse navio logo nos primeiros dias de viagem, morrendo 36 colonos.

A 15 de maio chegou o Defensor ao porto do Pará com 30 dias de viagem. Não tinha mais moléstia a bordo.

Os pormenores da viagem são imediatamente divulgados, e começam os receios da moléstia, que rompeu na cidade de Belém no dia 26 de maio, 11 dias depois da chegada dos emigrantes do Defensor.

O primeiro afetado é um soldado do 11º de caçadores, aquartelado em uma extremidade da cidade; mas esse facto de predileção se explicou desde logo com facilidade. Alguns colonos foram para o Arsenal de Marinha; o 11º de caçadores fazia a guarda do Arsenal. Os soldados relacionaram-se com os colonos. Após primeiro caso fatal, seguem-se outros no mesmo quartel.

Mas, ao mesmo tempo que era atacado o primeiro soldado, apresentaram-se afetados do cholera dois escravos do Barão de Arary. Pesquisado o caso, soube-se que estes escravos tripulavam um escoler, que a chegada do Defensor foi junto a este navio vender linha e frutas.

Ainda um terceiro facto se mostrou a bordo do vapor Paraense, onde foram admitidos dois emigrantes como foguistas.

O cholera grassou com intensidade na Província do Pará. A capital perdeu 1.009 pessoas e toda a província 5.000, sendo a sua população calculada naquela época pelo Sr. Conselheiro Luiz Pereira do Couto Ferraz, hoje Visconde de Bom Retiro, em 207.400 habitantes.

A cidade de Belém, meus senhores, foi para o Brasil o único foco primitivo de irradiação da moléstia, que daí partiu para o Amazonas, esterilizando-se a semente epidêmica, para esta Corte e para a Bahia, transformando-se estas duas cidades em focos secundários produtivos do mal.

Na direção do Amazonas, observa-se a invasão de Obidos pela chegada do vapor Marajá conduzindo 180 colonos.

O mesmo vapor transporta a moléstia para a Villa Bela da Imperatriz, Serpa e a cidade da Barra, onde morrem ao todo 23 pessoas, n’uma população calculada em 42.600 habitantes.

Dos dois focos secundários formados no Brasil, o que primeiro constituiu-se foi o do município neutro.

A 5 de junho de 1855, o Guanabara trouxe a esta corte a notícia da chegada do Defensor ao Pará, com perda em viagem de 36 homens, e da desconfiança que nutria o inspector de Saúde Pública daquela província do caráter cholerico do mal.

Pelo vapor Imperador, a 26 do mesmo mês, soube-se que era realmente o cholera-morbus que grassava Belém.

O Avon, recebendo na Bahia as malas do S. Salvador, que havia sofrido desarranjos, retardando a marcha, confirmou as notícias anteriores, e trouxe mais a de quarentena no porto do Recife.

Estas comunicações despertaram a atenção das autoridades sanitárias, e o Conselheiro Paula Candido, inspector de Saúde Pública da Corte, acercou-se das prevenções racionais para evitar a invasão da moléstia aqui.

Aguardava-se, pois, a chegada do S. Salvador, para se fazerem efetivas as medidas combinadas.

O digno inspector de Saúde Pública não declarou em seu relatório quais seriam elas, mas é de supor que tivesse em mente a quarentena.

O S. Salvador chega afinal no dia 12 de julho, contando 29 dias de viagem do porto inficionado.

Trazia 18 passageiros, 5 recrutas e 42 escravos; mas nenhum caso de moléstia se dera a bordo em toda a sua longa denota.

Todos os planos, porém, frustraram-se a chegada do navio tão ansiosamente esperado.

Desembarcaram-se logo alguns passageiros, e apesar da recomendação formal da autoridade sanitária, no dia imediato encontrou ela o vapor vazio. Mas o Sr. Conselheiro Paula Candido não evitado a comunicação do navio com a terra, pois que ele mesmo foi primeiro a estabelecer essa comunicação, mediante a sua pessoa, após a visita do dia anterior.

Entre os escravos, um se havia embarcado no Ceará, e durante a viagem nenhuma alteração apresentara. Nenhum caso de moléstia se havia dado a bordo. Tendo chegado à casa de seu senhor, é rua do Hospício n. 81, Maximino, que assim se chamava este indivíduo, foi habitar com Custodio, que aqui já se achava de longa data.

No dia 15, isto é, três dias depois de sua chegada, Maximino foi atacado de cholera e removido da casa de seu senhor, conseguindo mais tarde restabelecer-se. Custodio foi logo depois affectado da moléstia e sucumbiu.

O cholera havia sido importado pelo S. Salvador, nenhuma dúvida havia disto; mas não se encontrou o verdadeiro responsável de tamanha facilidade ou incúria. Não seria a própria autoridade sanitária, que se mostrava tão humana em relação aos quarentenários, que considerava também homens para não lhes serem impostos tão dispendiosos e ao mesmo tempo tão oppressivas quarentenas?!

No dia 18 de julho de 1885 deu-se um caso na rua do Lavradio n. 46, que não teve explicação, e outros seguiram-se igualmente fatais na mesma casa.

No dia 27 é afetada uma recolhida da Santa Casa, junto ao hospital, onde recolheram-se doentes dois indivíduos de bordo do S. Salvador.

No dia 30 apresenta-se com o cholera um soldado do quartel do campo da Aclamação, onde estiveram por algum tempo os recrutas do vapor S. Salvador; e outros casos se mostram no mesmo quartel.

Deste ponto a moléstia disseminou-se em todo o município neutro, grassando com maior intensidade no Engenho Velho, Engenho Novo, S. Christovão e Jacarepaguá, subindo o número de mortos, em todo o município, a 4. 828.

Em agosto passa-se o mal para a província do Rio de Janeiro e mostra-se na Jurujuba e Itaipú em setembro, depois na Ilha do Governador, S. Gonçalo, Itaborahy, etc. Vai a Petrópolis, atacando as populações intermediárias, toma o Valle do Parahyba e penetra na província de Minas.

Ha epidemia em Vassouras, Valença, Piraí e Barra Mansa, perdendo o último destes lugares 372 habitantes, dos quais 311 eram escravos.

Em toda a parte, sobressai a mortalidade da população escrava!

Ao sul do Rio de Janeiro, Itajahy, Angra, Mangaratiba e Paraty não são poupados. Ao norte a moléstia vai até a margem do Itabapona, em 18 ou 20 de outubro, e ameaça a província do Espírito Santo.

A mortalidade do Rio de Janeiro mostrou a 4.460 pessoas, número que, adicionado ao do município neutro, dá o total de 9.288 para uma população avaliada naquela época em 1.200.000 habitantes.

Nos fins de outubro do mesmo ano, meus senhores, foi o Espírito Santo talado pelo cholera, que se desenvolveu a princípio em Itabapoana, partindo da margem oposta do rio, onde grassava a moléstia.

A 2 de novembro vai ele a Benevente e outros pontos do sul da província; a 26 toca em Itapemirim e a 16 de dezembro Victoria.

A invasão mórbida, na opinião geral, não foi feita somente por terra, deu-se ao mesmo tempo por mar.

Uma lancha procedente da Corte, em frente a S. Matheus perdeu dois tripulantes da moléstia, sendo um deles atirado ao mar.

A embarcação depois comunicou com a terra.

No Espírito Santo, assim como em toda a parte, o cholera preferiu o transporte por água, e propagou-se mais fácil e rapidamente na direção dos rios Benerente, Guarapary e Mucury.

Em uma população de 51.300 pessoas, a mortalidade cholerica subiu a 2.000.

Foi também da corte, meus senhores, que o terrível flagelo popular passou-se para a província de S. Paulo; mas aí o número de mortos não excedeu de 62, em uma população de 500.000 habitantes.

Este feliz resultado deveu S. Paulo às medidas adaptadas – a quarentena e o cordão sanitário da serra do Cubatão. Mas a 21 de outubro de 1855 aportou a Santos o vapor Catharinense, procedente do Rio de Janeiro, sem vestígios de cholera a bordo. Dois passageiros seguem para o Paraná. Em Suamerim tomam canoa.

Pois bem, senhores, os dois remeiros do Araripia foram vítimas do mal, em a 29 de outubro e o outro e 1 de novembro: donde tinha vindo a moléstia, que em terra não havia? Certamente dos passageiros do Catharinense, que nenhum incômodo entretanto apresentavam, e seguiram felizes a sua viagem.

Desta corte ainda estendeu-se o mal á província do Rio Grande do Sul. Pelotas é o primeiro ponto atacado, segue-se Jaguarão logo após, pagando ambas as cidades pesado tributo à epidemia. Soffrem também a cidade do Rio Grande e a capital, tomando depois a moléstia a direção dos rios que desembocam no Guahyba.

Em uma população de 201.300 pessoas, que se dava oficialmente aquela província, a mortalidade foi de 2.814.

É este, meus senhores, o histórico do núcleo de irradiação epidêmica da capital do Império, que foi, como se acaba de evidenciar, assas fértil.

O foco secundário da Bahia, onde foi levada a moléstia pelo vapor Imperatriz, teve no entanto maior poder de irradiação.

A 21 de julho deram-se os primeiros casos no largo do Carmo em uma mulher e um menino, casos que foram atribuídos a envenenamentos.

A 23 do mesmo mês, foi vítima da moléstia a mulher de um soldado, na rua da Castanheda.

Disse-se também que a 19 já dois jangadeiros do Rio Vermelho haviam sido fulminados ao chegarem do mar, apresentando vômitos; mas attribuiu-se a morte á congestão cerebral.

Na Bahia não se procedeu a pesquisas minudentes, e perdeu-se a pista da moléstia.

A epidemia mostra-se nos últimos dias de julho no Rio Vermelho, fallecendo diariamente de 8 a 10 pessoas.

A 3 de agosto surge o flagelo na cidade de Cachoeira, a 6 em Santo Amaro, a 10 em Valença, a 13 em Nazareth. Jaguaripe, Itaparica e Maragogipe não são poupadas.

No fim de agosto se havia ele generalizado no litoral da Bahia, fazendo numerosas victimas.

Em Santo Amaro ficaram cadáveres insepultos, sendo preciso incinerá-los.

Como aluno da Faculdade fui comissionado para Valença, onde assisti a cenas da maior desolação; aí a moléstia mostrou-se cruel, principalmente na Villa de Taparoá e em Jiquié.

Na Bahia o cholera não respeitou o centro. Ele foi á Feira de Sant’Anna, ao Curralinho, e ameaçou os Lençóis. Seguindo uma outra direção, invadiu a Matta, Catú, Alagoinhas, Inhambupe, Itapicurú, Tucano, Pombal, chegando a 20 de outubro ao Monte Santo.

D’aí dirige-se com rapidez para os limites da província ao norte, atravessando Geremoabo e Bom Conselho, e enfrenta a Villa de Nossa Senhora dos Campos do Rio Real, ameaçando de morte a província de Sergipe.

A Bahia, cuja população foi naquela época calculada em 1.100.000 habitantes, perdeu 30.000 pessoas vítimas da moléstia.

Dessa província, meus senhores, o cholera propagou-se em setembro, na de Sergipe. A 14 era invadida a Villa de Campos, seguindo d’aí para o Lagarto, a 24 de outubro achava-se ele no Riachão.

Nessa mesma época, realizava-se nova invasão, por um outro lado, pelo porto de S. Christovão. A moléstia foi ali levada a 20 do mesmo mês pelo vapor Santa Cruz, da Companhia de Navegação Bahiana.

Dos dois mencionados pontos de invasão do cholera, espalharam-se epidemias em todas as direções com espantosa intensidade.

Em princípio de novembro, os povoados limítrofes com a província de Alagoas já se achavam atacados do mal, e tão desapiedado aí foi que no Rosário ficaram 128 cadáveres insepultos.

Sergipe foi a mais vitimada de todas as províncias; pois que, tendo apenas 183.600 habitantes, perdeu 15.112, ficando pelos matos e sepultando-se nas estradas cerca de 3.750, segundo o cálculo da autoridade sanitária.

Seguindo sempre a direção do norte, senhores, o cholera assaltou a cidade de Penedo, fazendo aí em poucas semanas 1.112 vítimas entre 4.500 habitantes; e ao mesmo tempo Piassabuçú, onde foram afetados da epidemia 800 pessoas e morreram 400, n’uma povoação de 1.000 habitantes!

Destes pontos, a moléstia seguiu a margem esquerda do Rio S. Francisco, em demanda da província de Pernambuco, tão bem defendida pelo lado do mar, no porto de sua capital, graças a uma rigorosa quarentena, mau grado todas as reclamações insensatas que se faziam.

Maceió, Alagoas, S. Miguel, Curoripe e Pilar sofreram muito da epidemia; mas Limoeiro foi além, porque em 300 habitantes perdeu 128, isto é, quase metade! Assembleia, Anadia, Palmeira e principalmente Quebrangulo pagaram largo tributo ao cruel hóspede.

Em 204.200 habitantes da província de Alagoas, a mortalidade epidêmica foi de 17.000.

Dessa província, senhores, passou-se o cholera para Pernambuco.

Dois doentes do Pão d’Açúcar levaram o mal a Águas Bellas, distrito de Guaranhuns e ainda dous doentes de Piranhas transportaram-no para Flôres, na província de Pernambuco.

Assim burlaram-se as medidas tomadas em Recife.

De Guaranhuns a moléstia passou a Bonito, Altinho, Popocaça, Cimbres, Panella e Tacaratú, não poupou o Limoeiro e Bom Jardim, chegando á glória no Pau d’Alho, e Cacimbas, e dahi á Victoria, 10 léguas somente distante da capital.

Na cidade da Victoria foram inauditos os estragos, de modo a quase ficar despovoada; Santo Amaro de Jaboatão, Várzea e Caxangá foram vencidos com rapidez, e o Recife achou-se a final a braços com a cruel epidemia.

A província de Pernambuco perdeu 18.000 habitantes, em 95.000 calculados na estatística daquele ano.

Em 1856, senhores, estendeu-se o mal para o norte, alcançou no mesmo ano a Paraíba e o Rio Grande.

A respeito deste, não possuem os nossos arquivos dados exatos, bem como relação á primeira; mas sabe-se que na Paraíba morreram da epidemia 15.000 pessoas, em 209.300 habitantes.

Assim, nos pontos que acabo de mencionar, a mortalidade cholerica, nos anos de 1855-1856, subiu a 103.000 pessoas.

Os focos epidêmicos, senhores, aqui se extinguiram; mas por esse mesmo tempo o cholera devastava quase a Europa inteira.

Ainda em 1856 reinava ele em Lübeck, Königsberg, Suécia, Hespanha, Portugal, Ilha da Madeira e até na África.

Em 1857 as epidemias já eram muito limitadas na Suécia e ao norte da Alemanha.

Em 1858 volve o terrível flagelo a Rússia, que é assas vitimada. Há também epidemias no Mecklemburgo, Hamburgo, Hespanha, Holanda e Marrocos.

Em 1860 despede-se a moléstia de Malagre e Granada, para em 1861 abandonar completamente a Europa, retirando-se pela mesma porta de entrada – a Rússia, que recebe o osculo de despedida da morte em S. Petersburgo e seus arredores.

(...)

Em seu extenso itinerário, o cholera gastou 15 anos.

Extinta a moléstia, na Europa, em 1861, quatro anos depois faz ela erupção por ocasião da peregrinação a Meca em 1865.

Durante os quatro anos ela não pousou um só momento; percorreu as diferentes localidades da China, onde afinal naturalizou-se.

Em dezembro de 1864 se achava o cholera em Singapura, segundo o mapa de BArtoletti.

Em fevereiro de 1865 ele havia invadido Mokalla; a Meka foi ele transportado pelos peregrinos, sendo em abril do mesmo ano tão espantosa a mortalidade, que aquela grande massa humana dividiu-se em completa debandada e em todas as direções.

Uma grande porção de peregrinos procura abrigo em Djedda, no Mar Vermelho, mas ahi mesmo o terrível flagelo os dizima, sucumbindo a ele 20.000 pessoas. O terror se apodera então dessas hordas desvairadas, e os homens de Yatagan em punho conquistam lugares a bordo dos navios ingleses, que fazem o serviço do Suez, conduzindo por vezes cada um desses navios 3.000 passageiros.

Assim é levado o cholera a Suez em 21 de maio, a Domanhom em 23, e no dia 2 de junho á Alexandria.

Dessa cidade, meus senhores, dissemina-se o mal por toda a Europa.

Atingiu Marselha a 11 de junho, e 20 a Ilha de Malta, 26 Smyrna, 27 Rhodes, 28 a Ilha de Chypre e Constantinopla, 29 Beyrouth; em Ancona estava a 7 de julho, e no mesmo mês invadia Barcelona, Valença, Gibraltar, a Sicília, os Dardanellos, Florença, Trebizondi e Odessa.

Desta vez, o sinistro viajante chegou á Rússia não mais pelo Mar Cáspio e pela corrente do Volga, mas pelo Mar Negro.

Neste trajeto, ele invade o território prussiano e corre certeiro a Alemburgo.

Em Paris, rompe a epidemia em setembro de 1865, no Haire em outubro e na Inglaterra em 1866, donde dirige-se para a América, desenvolvendo-se em Halifaz em abril do mesmo ano.

Já Guadalupe havia sido invadida a 22 de outubro de 1865, e New York a 6 de novembro do mesmo ano.

Em 1864 estava extinto o facho epidêmico na Europa, mas reinava na América do Norte, donde foi importado o mal para o acampamento do exército brasileiro no Paraguay.

Os primeiros pontos aí afetados foram o Cerrito, Corrientes e Itapirú. Já antes disto um transporte conduzindo tropas voltava de Goya, por se haver desenvolvido nelas o cholera.

Empregaram-se esforços para impedir o acesso da moléstia em Curuzú e Tuyute; mas foi tudo baldado. Ella penetrou no acampamento, e durante os meses de abril e maio de 1867 ceifou desapiedosamente o exército, ficando este com um claro de 3.400 soldados, que foram vitimados pela epidemia.

Depois disto, não se falou mais do cholera, que, semelhante a um rio caudaloso, tendo transportado por efeito de grande enchente, depois dela voltou a seu leito.

Mas, senhores, em agosto de 1882, depois de 15 anos de repouso, o maior que feriu a Europa, desde que o cholera tornou-se viajante, quando não mais se receava tão cruel enfermidade, deu o telégrafo rebate de estar ela grassando epidemicamente, com certa intensidade, em Hong-Kong, na China.

Outro telegrama da agência Havas, em 1 de setembro, já a dava em Manilha, e um despacho de 18 de abril de 1883 anunciava a sua existência em Bombaim...

De feito, com a ocupação militar do Egypto pelos ingleses, o mal manifestou-se em Suez, e uma grande epidemia se ateou em Damietta, que começou no meado de junho do ano passado.

Dentro de um mês já estava a moléstia no Cairo, e no fim de julho em Alexandria, onde zombou do cordão sanitário, fazendo em ambas as cidades 22.000 vítimas.

Pela quarta vez, pois, estava a Europa ameaçada de novas hecatombes.

As cidades do Mediterrâneo se puseram desde logo em defensiva contra a invasão do cholera, mediante medidas muito rigorosas de sequestração, em relação aos pontos afetados.

E a epidemia extinguiu-se no Egypto, sem poder dele emigrar...

É esta a história contemporânea da moléstia.

(...)

(...)

As investigações das autoridades sanitárias não deram resultados positivos, porque ainda predomina no espírito de muitos médicos a doutrina exclusiva da transmissão da moléstia nas defecções dos afetados. Não contestamos as opiniões de Pettenkoffer, Huseman e tantos outros que apontam e explicam factos dessa espécie, que são incontestáveis. Há muitos outros modos de transmissão, independentes até do estado mórbido do indivíduo, que são igualmente inconcessos.

A história do cholera no Brasil bastará para convencer aos que refletem que o princípio morbígero, que para Koch como para mim é um simples bacilo, pode apegar-se a qualquer objeto ou cousa, do mesmo modo que se montem sobre a pele ou roupas do indivíduo são, e se vê nas defecções do doente.

A questão é de quantidade e nada mais.

A bordo d navio tudo transporta o contágio, levando-o a grandes distâncias. O ar, porém, tem um alcance muito limitado.

A moléstia, pois, pode ser comunicada a uma pessoa ou a uma população...

Este modo de ver, meus senhores, é aceito geralmente na ciência em relação a algumas outras moléstias também contagiosas, com disposições á epidemicidade.

Nesta origem de ideias e considerações, chega-se fácil, positiva e naturalmente à profilaxia do cholera...

A história confirma o valor das quarentenas.

Graças a esta medida sanitária, a Grécia pouco tem sofrido do mal. Vimos a quarentena preservar a cidade do Recife por muitos meses, e até a ocasião que a moléstia surgiu do interior.

Os mesmos resultados foram observados no Ceará, sendo de vantagens ainda depois do desenvolvimento de alguns casos, como se viu em S. Paulo, que, graças a quarentena e no cordão de isolamento do Cubatão, pode dizer-se, foi quase preservado da epidemia.

É de lastimar, entretanto, que, apesar de tão duras provações, como as que experimentamos em 1855-1856, tenha-se o governo esquecido dos acontecimentos, descuidando-se completamente da salubridade pública, de modo a improvisarem-se agora, na hora da necessidade, lazaretos que não se prontificam a tempo, mediante despesas muito mais avultadas para o Estado.

No Brasil, desgraçadamente, é sempre assim.

(...)

Em matéria de salubridade pública, podem ser perfeitamente consorciados os interesses comerciais com a manutenção da vida e da saúde das populações, tão rareadas na vastíssima superfície do Império.

As quarentenas podem ser feitas em terra ou no mar. Eu tenho mais confiança nas últimas...

(...)

Destinou-se o transporte Purus para lazareto flutuante.

Este navio é insuficiente e impróprio para tal serviço.

Deve o governo lembrar que o número de quarentenários será avultadíssimo, porque os pontos afetados são os que nos fornecem a grande maioria de colonos.

Como acomodar os passageiros de dois ou três vapores, que podem chegar em prazos muito aproximados, em um navio daquelas proporções?

Depois, os vapores de guerra não têm as condições indispensáveis para semelhante mister.

As infrações do regulamento das quarentenas serão certamente mais fáceis.

Preferível seria contratar um bom navio da marinha mercante, e acomodá-lo com rápido concerto ao fim. Muito haveria onde escolher-se, em brevíssimo prazo, e o serviço não seria entregue a funcionários de um ministério diferente.

Os empregados do lazareto flutuante devem ser da Repartição de Saúde do Porto, subordinados ao seu chefe, e respondendo perante este pelas infrações do regulamento respectivo.

A quarentena, porém, a meu ver, não deverá limitar-se ao lazareto flutuante; cumpre ainda ter os passageiros por espaço de dois dias em observação em um lazareto fixo, estabelecido de preferência em alguma ilha, a menor distância da cidade do lazareto flutuante.

Neste serão desinfectadas as bagagens dos passageiros, lavadas as suas roupas, e estendidas sob a ação viva do ar.

As malas reclamam também o serviço de desinfecção, por três dias, prazo igual ao da quarentena marítima para os passageiros.

Ellas serão abertas, arejadas o melhor possível, e expostas aos vapores do ácido fênico, ótimo desinfectante para o caso.

Ao serem os passageiros transferidos para o lazareto fixo, elas serão levadas para o correio, sem resultar d’aí grande inconveniente, em uma época em que o telégrafo satisfaz as nossas mais urgentes necessidades comerciais.

Eu reclamo ainda do governo, senhores, a quarentena das mercadorias, como imprescindível.

Se o princípio produtor da moléstia pode vir no corpo do homem, nas suas roupas e sua bagagem, por que não acompanhará ele os objetos e gêneros que importamos de um ponto infestado pela moléstia?

A respeito das mercadorias, eu entendo que ainda mais cuidado deverá haver, e o tempo de sequestração convém ser maior.

Os passageiros levam-se e frequentam mais o tombardilho, onde se acham expostos a grandes correntezas de ar. As suas roupas são susceptíveis em grande parte de lavagem n’água quente, de efeito neutralizante rápido, e o seu arejamento é fácil.

O mesmo não se dá a respeito das mercadorias.

Os volumes são transportados dentro dos porões, d’onde somente são tirados á hora da descarga, que é rapidamente feita.

Para a sua desinfecção será necessário mais algum tempo.

Eu não concederia menos de 12 dias.

Os lanchões da Alfandega, postados fora da barra, receberiam as cargas dos navios suspeitos.

Os volumes seriam abertos pelos empregados sanitários, diante dos agentes da Alfandega, e expostas as mercadorias ao ar livre, submetendo-se tudo no quanto e no como for possível a ação de um desinfectante, como o ácido salicílico, que não comunique-lhes cheiro pronunciado e alteração em suas qualidades sápidas, no que respeita aos gêneros alimentícios.

Mais do que tudo confio na exposição às fortes correntezas do ar, que constituem em tais casos o melhor desinfectante até hoje conhecido, extinguindo a vida dos germes que produzem o cholera.

(...)

Uma epidemia de cholera, nas condições em que nos achamos, será por demais desastrosa. Uma grande perturbação econômica se fará prontamente sentir.

O crédito esmorece diante da morte que esvoaça sobre todas as cabeças. O capital torna-se medroso, e retrai-se equívoco. Os mercados despovoam-se, porque todos fogem da peste, principalmente os nossos homens do centro; o comércio experimenta sensíveis prejuízos.

Os centros industriais tornam-se raros, pela imposição de evitar-se grande reunião de pessoas, e pelos claros que a morte abre, e a interrupção ou diminuição dos trabalhos fabris é prejuízo certo para os seus exploradores.

A lavoura, que é entre nós a primeira indústria, será quase abandonada; porque o cholera-morbus, como já ouviste, persegue mais a população escrava, a que está ela entregue.

(...)

Na epidemia de 1855 e 1856 segundo os dados oficiais, foram despendidos cerca de 3.000:000$000. Agora, porém, com os desconsoladores exemplos da guerra do Paraguay e da seca do Ceará, o multiplicador para essa quantia será muito mais elevado.

Não sei mesmo se uma nova epidemia de cholera, generalizada no Império, será menos prejudicial do que a guerra do Paraguay.

Se menos forem consideradas as despesas, as perdas de vida não o serão igualmente.

Basta que nos lembremos que nos campos do Paraguay ficaram mortos quase 100.000 brasileiros; mas a epidemia de cholera, somente nos pontos de que vos dei notícias, devorou mais de 103.000 pessoas, em sua maioria da gente que o país mais procura, a que cultivava os campos,

Eu lamento, senhores, neste momento, a ausência do Sr. Ministro do Império, o alto funcionário que é incumbido do importantíssimo serviço da salubridade pública.

Sob S. Ex. estão fitos, na presente hora, os olhos do país...

Eu sei que o trabalho que pesa sobre seus ombros é imenso, invencível mesmo; porém o mais instante é pôr sem dúvida o da salubridade pública, na iminência da supervenção de uma epidemia cruel e desapiedada como o do cholera.

A nossa organização administrativa é defeituosa; releva reconhecer e corrigir.

(...)

O país, que ainda tem os seus horizontes turbados pela ignorância, reclama instantemente um ministro da instrução pública, que garanta por seus estudos especiais a boa e mais proveitosa organização e difusão do ensino em todos os seus ramos.

O Ministério da instrução pública seria, como na Prússia e na Áustria também o dos cultos e dos negócios médicos.

(...)

Já é tempo de dotar-se o país com tão vantajosa organização. Com ela serão melhor satisfeitos os justos reclamos da população, dando a nação seguro penhor ao mundo de sua civilização.

Enfim, senhores, não dependendo de nós o meio de debelar o terrível mal, que de tantas desgraças nos amealham, cabe-nos somente interceder ao Céu que inspire o Sr. Ministro do Império, pois que tem ele presentemente em suas mãos a sorte de milhares de brasileiros.”.

Localização

- Conferência na Escola da Gloria. 3 de agosto de 1884. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1884.  (íntegra) (IHGB)

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 482.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 29 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1140

 


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