Conferência Popular da Glória nº 561
Data: 16/10/1887
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: O homem pré-histórico: períodos quaternário, terciário e secundário.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Senhores,
Na minha conferência anterior tive a honra de expor as minhas ideias a respeito da monogenia e da poligenia, e da origem geográfica da espécie humana, submetendo-as à vossa esclarecida apreciação.
Declarei-me francamente poligenista, sectário da teoria dos centros múltiplos de criação, não desconhecendo, entretanto, que sábios de grande quilate pensam no modo contrário, sustentando a doutrina oposta, que têm pela mulher. Ao vosso criterioso juízo fica a decisão, certos de que em nenhuma hipótese me poderá magoar, ainda mesmo que me seja contrária.
Não voltarei às questões já discutidas para ter hoje tempo de referir-me com algum desenvolvimento à antiguidade do homem sobre a terra.
Senhores – que o homem viveu um período quaternário ou glacia, anterior ao atual, não há a menor dúvida, é dogma científico; que foi contemporâneo do elefante primitivo (mamute), do rinoceronte, do urso das cavernas, da hiena fóssil, etc., está hoje mais que demonstrado; que lutou com esses animais e os venceu, com o auxílio dos seres rudes instrumentos de pedra lascada, é fora de questão, não admite mais controvérsias n’este século.
Mas, como foi possível chegar-se a resultados assim tão positivos, em um assunto tão difícil? Graças à paleontologia, ciência novíssima, que, de mãos dadas com a geologia, tem realizado as mais inesperadas e assombrosas descobertas!
Vou exemplificar para tornar mais convincente a minha asserção.
Foi em 1823 que o sábio francês Amy Boné descobriu as primeiras ossadas humanas fósseis, nas margens do Reno, nos arredores de Lahr, no país de Baden.
Mas esta descoberta notável foi como se não houvera sido feita, por que o eminente Cuvier contestou-a com o peso enorme da sua autoridade, ficando suspenso a veredictum do mundo científico até o ano de 1847, que tornou-se memorável pelas descobertas de Boucher de Perthes, em Abeville. Apesar, porém, de se haverem multiplicado os achados mesmo nos arredores de Paris, ainda os partidários do homem fóssil encontravam numerosos adversários, capitaneados principalmente pelo distinto naturalista Beumont, discípulo e continuador de Cuvier. Muitos espíritos hesitavam ainda, até que Eduardo Lartet, o verdadeiro criador da paleontologia humana, como muito bem diz Quatrefages, publicou em 1861 um notável trabalho sobre a célebre gruta encontrou Lartet ossos de oito espécies animais d’entre as nove que caracterizam os terrenos quaternários e miocenos.
Alguns ossos estavam carbonizados, demostrando evidentemente haverem sofrido a ação do fogo.
N’esta caverna havia também numerosos instrumentos e utensílios de sílex.
Ora, tudo isto prova que o homem viveu no meio da fauna quaternária, tirando d’ela recursos para a sua alimentação e vestimenta, conforme a grande lei da luta pela existência.
Seria longo e fastidioso, senhores, repetir-vos todas as descobertas feitas desde 1861 até hoje.
Dir-vos-ei apenas que o Sr. Dupont, de 1867 a 1873, descobriu 40.000 ossadas animais fósseis, no vale de Lesse, e com elas 80.000 instrumentos de sílex e muitos esqueletos humanos.
No mesmo ano de 1867 Blake anunciava ao congresso de Paris que nos depósitos auríferos da Califórnia, e sobretudo perto de aldeia sonora, encontrara-se abundantes restos humanos fósseis e instrumentos de sílex.
E antes dele o Dr. Wilson havia, em 1865, publicado fatos de igual natureza.
Já na minha passada conferência vos disse que o sábio Lund, em 1844, fizera as suas monumentais descobertas nas margens das lagoas do Sumidouro e Santa, na província de Minas Gerais, provando com elas a existência do homem quaternário n’esta parte do continente americano.
Notáveis foram descobertas feitas no território da Confederação Argentina pelos Srs. Ameghino e Burmeister, e pelo Dr. Moreno, como tudo se pode coligir da importante obra de Naidallac, intitulada – América pré-histórica.
Pois bem, senhores, todos esses observadores, de continentes diversos, operando em meios diferentes, chegam, no entanto, ao mesmo resultado final, isto é, a afirmação de que os homens do antigo e novo continente viveram no período quaternário, foram contemporâneos dos grandes mamíferos, hoje extintos.
É desnecessário amontoar fatos sobre fatos para demonstrar o que ninguém mais contesta no estado atual da ciência.
Passarei, pois, ao período terciário ou plioceno.
Também é atualmente fato inconcluso, e definitivamente adquirido para a ciência, a existência do homem no período terciário.
Vou demonstrá-lo, recorrendo aos competentes, aos autores especialistas na matéria, esperando com o testemunho d’eles levar a convicção ao vosso espírito.
Até o presente, diz Quatrefages, a raça de Constadt é incontestavelmente a mais antiga da Europa.
Ela disputou o solo aos grandes mamíferos extintos: o mamute, o rinoceronte tricórnio, o urso e a hiena das cavernas.
Ela pertence, pois, aos primeiros tempos da época quaternária, e para o Sr. Schaafausen remonta ainda mais – não é sendo o homem terciário.
Falconer, eminente paleontologista inglês, prematuramente roubado à ciência, foi um dos primeiros que aventou a ideia da existência do homem no período terciário ou plioceno. Mas ele esperava encontrar o homem terciário na Índia, e, no entanto, o Sr. Denoyers o descobriu na França.
Foi em 1863, nos areais de Saint-Prest, nos arredores de Chârtres, que Denoyers encontrou uma tíbia de rinoceronte com incisões, com entalhes semelhantes aos que ele tinha muitas vezes visto sobre ossos de ursos e de renas comidas pelo homem quaternário.
Uma comparação atenta a fatos numerosos da mesma natureza observados em diversas coleções, o autorizaram a afirmar ao mundo científico que o homem remontava além dos tempos glaciais, e tinha seguramente vivido na época terciária.
Mas Denoyers apresentava somente um gênero de prova, que para ser apreciada em seu justo valor reclamava certo hábito, e conhecimentos muito especiais. Exigiram, portanto, que ele apresentasse provas bem positivas do homem plioceno, pelo menos os objetos de sua indústria e as armas com que ele tinha podido abater os elefantes, rinocerontes, cervos e outros animais, cujos ossos apresentavam estrias mais ou menos profundas atribuídas por Denoyers à ação humana.
Pois bem, senhores, o abade Bourgeois correspondeu logo a essas exigências, e, em presença dos instrumentos de sílex por ele submetidos à apreciação dos competentes, dissiparam-se de todas as dúvidas.
Infelizmente a areia de Saint-Prest é considerada por numerosos geólogos como pertencente antes aos terrenos quaternários inferiores do que a formações francamente terciárias.
As descobertas feitas na Itália ainda nos levam mais longe, Por diversas vezes, e desde 1863, alguns sábios desse país encontraram vestígios patentes e mesmo ossadas humanas em terrenos incontestavelmente terciários. Todavia esses resultados foram postos em dúvida, e até repelidos por sábios ilustres.
Mas em 1876 Capellini, abalizado professor da Universidade de Bolonha, descobriu nas argilas de Monte Aperto, e em mais dois outros lugares, provas evidentes da existência do homem nos tempos pliocenos. O emérito paleontologista encontrou nessas três localidades ossos trabalhados pela mão do homem, e por meio de instrumento cortante. E o que é mais – os cortes e estrias feitos nesses ossos diferiam completamente dos até então observados em ossos de animais do período quaternário.
A existência, pois, do homem terciário na Toscana é, a meu ver – diz Quatrefages – um fato incontestável.
Voltando, senhores, ao abade Bourgeois, vos direi que as suas pesquisas são de valor inestimável. Este hábil e perseverante observador descobriu no departamento do Loire, em Thenay, sílex talhado pela mão do homem; ora os geólogos são unânimes em considerar como terciários os terrenos onde o abade fez as suas descobertas.
Mas o sílex de Thenay, geralmente pequenos, são quase todos grosseiramente trabalhados, e vários paleontologistas e arqueólogos atribuíram as incisões ou estrias a choques acidentais.
A questão foi em 1872 proposta ao Congresso de Bruxelas, sendo nomeada para emitir parecer uma comissão de homens competentes d’Alemanha, da Inglaterra, da Bélgica, da Itália, da França e da Dinamarca, dividindo-se as opiniões; uns aceitaram, outros repeliram as conclusões de Bourgeois.
Alguns declararam que apenas um pequeno número das peças apresentadas pelo abade podia ser considerado como indústria humana; outros entenderam que deviam adiar o seu juízo, à espera de fatos novos.
Pois bem, novas peças descobertas pelo abade dissiparam-se de todo as dúvidas; entre outras um machado de pedra característico.
Mas, senhores, as provas relativas à existência do homem terciário não têm sido colhidas somente no velho mundo. Desde lado do Atlântico alguns sábios ilustres puderam igualmente chegar à demonstração do fato, depois de notáveis e acuradas pesquisas.
Ouçamos o que a este respeito diz Nadaillac, no seu livro já citado:
“Em 1857 um fragmento de crânio humano foi encontrado associado à ossos de mastodonte nas areias auríferas de Table-Mountain, na Califórnia, n’uma profundidade de 180 pés.”.
O Rev. Winslow apressou-se em enviar o fragmento ósseo à Sociedade de História Natural de Boston, a qual declarou que era impossível ligar importância ao achado, uma vez que sobre a jazida apenas havia o testemunho dos operários das minas.
Alguns anos depois, em 1866, Whitney, diretor das explorações geológicas da Califórnia, anunciou a descoberta de um crânio quase completo, a 130 pés, de profundidade, em uma camada aurífera situada na vertente ocidental da Serra Nevada, no condado de Calaveras. A mina repousava sobre um leito de lava e era coberta por várias camadas de igual natureza, de depósitos vulcânicos sucessivos. Esta sucessão demonstrava claramente o fato de longos períodos agitados, durante os quais possantes correntes alternaram com erupções repetidas.
O crânio estava coberto de uma camada de cascalho a que aderiram alguns outros fragmentos de ossos humanos, restos de pequenos mamíferos, conchas e pequenos moluscos. Ao lado faziam ramos de carvalho fósseis. Em outros pontos da Serra Nevada foram encontrados pelo mesmo observador abundantes ossadas de animais de raças extintas.
Nas minas da Califórnia e de Oregon foram encontrados tantos restos de elefantes e de mastodontes, que com eles poder-se-ia encher wagons.
Whitney anunciou a sua descoberta por esta maneira:
“Um grande interesse científico liga-se ao crânio de Calaveras. Pois bem, pelo estudo minucioso desse crânio, e dos outros achados da Serra Nevada, acumulando provas evidentes, e fatos incontestáveis, não hesito em afirmar a existência do homem sobre as costas do Pacífico anteriormente à época glacial ou quaternária, anteriormente ao período do mastodonte e do elefante, primitivo, em uma época em que a vida animal e vegetal eram inteiramente diversas do que são hoje."
Assim, pois, meus senhores, parece-me que não sendo lícito a ninguém pôr em dúvida os resultados que acabo de referir-me, obtidos, tanto no antigo, como no novo continente, é um fato adquirido para a ciência a existência do homem no período terciário.
Para não fatigar a vossa atenção, deixarei de referir-me a outros estudos de sábios americanos e europeus, julgando haver já demonstrado, pelo que fica exposto sucintamente, a tese que me propus desenvolver.
Quanto ao homem secundário, desse período tão afastado do atual, por enquanto, ainda não se pode afirmar de modo categórico a sua existência; ao menos é o que pensa a maioria dos paleontologistas, apesar de quererem alguns dar já o fato como provado.
Na minha próxima conferência ocupar-me-ei do darwinismo, transformismo ou doutrina evolutiva, hipótese engendrada pelo sábio francês Lamarck, e brilhantemente desenvolvida mais tarde pelo eminente naturalista inglês Charles Darwin, que conseguiu criar escola, que conta grande número de adeptos.
Apreciarei o alcance científico, moral e filosófico desse sistema, para que o ponto com a vossa presença sempre animadora, e com a benevolência que me tendes até aqui dispensado.
(o orador foi muito aplaudido e felicitado pelos ouvintes).”.
Localização
- BITTENCOURT, Feliciano Pinheiro de. “Origem das espécies e América Pré-Histórica”. In: Conferências efetuadas na Escola Pública da Glória pelo Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt. Rio de Janeiro: Papelaria Gonçalves Mendes & C, 1889, pp. 09-14. (BN)
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 561. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1178
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)