Conferência Popular da Glória nº 563
Data: 07/11/1887
Orador: Feliciano Pinheiro de Bittencourt
Título: O Darwinismo ou Transformismo.
Aviso, íntegra ou resumo: Íntegra
Texto na íntegra
“Senhores,
Nas minhas anteriores preleções tenho me ocupado da grande lei da luta pela existência cujo alcance procurei fazer-vos compreender; da seleção natural, sua relutante lógica, da variabilidade das espécies, sob condições e influências diversas, e do modo porque devemos interpretar as expressões superior e inferior, de que se servem os darwinistas; e que tem uma significação toda especial no caso vertente.
Hoje, senhores, aprofundarei mais a questão, encarando o transformismo ab ovo, isto é, a partir de seus alicerces, das bases primordiais.
Como explicam Darwin e seus fervorosos discípulos a gênese dos seres organizados? Como procuram esclarecer esse complicadíssimo problema, o mais vasto e difícil de quantos possam oferecer-se ao estudo e à meditação dos sábios modernos? Esforçar-me-ei por tornar patente qual o critério de tão sedutora doutrina que, como as outras engendradas pelos filósofos de todos os tempos, muito deixa infelizmente a desejar, quando se tratar dos primeiros tipos animais e vegetais, d’onde os mais derivam-se por uma série ininterrupta, de transformações.
Começarei por citar-vos as palavras com que o eminente sábio alemão Buchner se refere a este ponto primordial da doutrina evolutiva, e depois tirarei as minhas conclusões, submetendo-as à vossa esclarecida atenção, ao vosso criterioso juízo.
Diz o citado sábio, na página 65 do seu importante volume de conferências sobre o darwinismo:
“Concluindo a minha conferência de hoje, direi que Darwin – e este é o lado defeituoso da sua doutrina – ou não teve a precisa coragem ou faltou-lhe a lógica necessária para levar até as últimas consequências a ideia da origem comum de todos os seres. Contenta-se com 4 ou 5 tipos primordiais para o reino animal, e outros tantos para o vegetal, e admite que em sua origem em tempos remotíssimos, esses tipos foram chamadas à existência pelo criador. Entretanto ele não deixa em silêncio um ponto muito grave da sua teoria; pelo contrário, aborda-o com franqueza no fim do seu livro, onde diz expressamente que – por analogia é-se levado necessariamente a admitir um tipo primordial único e que há numerosas razões para crer que todo os seres inorgânicos têm uma mesma e única origem.”.
Além do que fica transcrito, acrescentarei que Darwin, partindo da circunstância de ser impossível estabelecer-se uma distinção clara e profunda entre os dois reinos animal e vegetal, diz o seguinte:
“Considero como provável que todos os seres organizados, que em todos os tempos hão vivido sobre a Terra, descendem de alguma forma primordial à qual o sopro do criador comunicou a vida.”
Contra estas ideias protesta energicamente o professor Bronn, que traduziu a obra fundamental de Darwin. Com efeito, e admitirmos que atos especiais de criação foram necessários para esses quatro ou cinco tipos primitivos, por que não admitiremos esse mesmo modo de criação para todos os outros seres E por que então tratarmos de explicar essa aparição por uma lei natural?
Para o filósofo é indiferente que o ato criador tenha-se dado uma ou mais vezes; n’um caso ou n’outro, há sempre um milagre em vez de uma lei natural, o que em ciência é coisa deplorável.
Apreciando tudo isto, sob o ponto de vista materialista, escreve o professor Bronn estas palavras, para as quais chamo a vossa atenção:
“Cumpre-se alargar até os seus limites extremos à teoria da descendência comum de todos os seres organizados que Darwin estabeleceu, fazendo derivar o conjunto do desenvolvimento orgânico de uma só forma elementar, a primeira e a mais simples, a célula ou o óvulo”.
Eis aqui, senhores, até onde chegam as últimas consequências do darwinismo – ao materialismo franco, professado sem rebuço pelos sábios alemães.
E tendes agora a razão por que eu vos disse em uma de minhas passadas conferências, que o darwinismo era uma doutrina sedutora, mas perigosa em seus fundamentos últimos, pois, insensivelmente nos conduzia ao sistema filosófico mais absurdo de quantos têm sido imaginados, aquele que faz derivar de matéria bruta, de matéria inerte, a origem de todo o mundo orgânico, caindo assim em censurável e por demais palpável confusão.
Abordarei agora, senhores, uma questão capital: qual a natureza íntima, qual a essência d’esses supostos tipos primeiros?
Animal, vegetal ou mista? Darwin não resolve este ponto, nem outro qualquer sábio, quer d’aqueles que os acompanham, quer d’aqueles que o acompanham, quer d’aqueles que o combatem.
Lembrou-se o eminente professor Haeckel, d’Iena, de resolver o grande assunto de uma maneira muito simples, fazendo crer que abaixo os tipos unicelulares descritos por Joeger existem ainda organismos de ordem inferior, sem estrutura, sem forma de célula, sem núcleo, sem órgãos, e que se nutrem por absorção imediata, reproduzindo-se por segmentação. São seres constituídos por pequenas massas albuminoides contráteis, isto é, susceptíveis de contração e d’expansão, posto que em fraca escala.
Por causa da sua extrema simplicidade, Haeckel designou esses seres pela denominação de Moneras, termo de origem grega, que traduz perfeitamente a ideia do ilustre sábio.
Mas, senhores, isto pouco adianta para a nossa questão: como explicar a aparição dessas moneras ou glóbulos plásticos, dos quais segunda Haeckel, provém por simples descendência os demais seres vivos?
Não há outro recurso senão apelar para a geração espontânea, hipótese extravagante, ante a qual, entretanto não recua o sábio professor da Universidade d’Iena.
Para Haeckel era difícil admitir-se outr’ora a geração espontânea (generatio oequivoca) porque não eram conhecidos esses seres simplíssimos – as moneras hoje, diz ele, ninguém mais pode duvidar que esses seres constituem o primeiro grau de vida, e que são o ponto de partida da célula.
De acordo com Joeger, reconhece Haeckel que é impossível estabelecer uma distinção entre a origem da planta e a do animal, e por isso é levado a admitir uma categoria intermediária, a dos protistas ou seres primordiais.
Julgo preferível citar-vos as próprias palavras de Haeckel, que, resumindo a sua teoria, escreve:
“Todos os organismos, que povoam hoje ou povoaram outr’ora a Terra, têm sido produzidos no perpassar dos tempos pela transformação lenta e o aperfeiçoamento gradual de um diminuto número de tipos primordiais (talvez mesmo um só); e por sua vez esses tipos saíram da matéria inanimada pelo processo da autogenia atribuído aos organismos os mais simples ou moneras”.
Ora, senhores, esta teoria de Haeckel outra coisa não é senão a geração espontânea, hipótese improvável por ser anticientífica. Eu não poderia combater melhor esse grave erro, que pretende modernamente os foros de cidade, do que lendo-vos algumas palavras que a propósito escreveu Mathis Duval, na página 57 do seu importantíssimo livro sobre o darwinismo, publicado no ano passado.
“O transformismo, remontando a árvore genealógica, chega até uma forma primitiva infinitamente simples, até o organismo monocelular comparável aos ambos e moneras. Parece ser este o limite extremo a que é dado remontar, e aí para um grande número de transformistas, desejosos de aterem-se rigorosamente aos fatos científicos, nunca fazendo intervir uma hipótese em desacordo com os resultados experimentais. Esta hipótese é a de geração espontânea, isto é, da aparição em um meio puramente mineral, de um composto albuminoide, d’uma pequena massa de protoplasma, em uma palavra, de um pequeno organismo monocelular. Entre os discípulos de Darwin, continua Duval, conta-se Haeckel, que não hesita em admitir que se nas condições atuais a geração espontânea não é realizável, é lícito conceber que em uma dada época, sendo outras as circunstâncias do meio pudesse ter havido uma agregação das partículas inertes da matéria, e o mundo orgânico sair repentinamente do mundo mineral. Deixaremos de seguir tanto quanto possível esse ou outros autores em um terreno tão hipotético, porque se os fatos da observação e da experiencia nos esclarecem sobre as transformações e a evolução dos seres se nos permitem considerar todos os seres atuais como derivados de um primeiro organismo simples e elementar, não nos dão por outro lado nenhuma segura noção de ensino que, ou pelo raciocínio ou pela analogia, nos permita conceber o modo de origem desse primeiro organismo.”
Assim, pois, senhores, para Duval, como para todos os sábios criteriosos, a geração espontânea é uma hipótese sem a mais ligeira base cientifica, porque não assenta sobre a observação ou a experiencia.
Ao concluir hoje as minhas considerações sobre a doutrina evolutiva, devo dizer-vos conscienciosamente que no meu fraco entender nem esse nem qualquer outro sistema explicam de modo positivo e satisfatório o segredo inviolável da gênese primitiva dos seres vivos. O problema permanece até hoje insolúvel, malgrado os esforços hercúleos de muitos homens ilustres da antiga e da nova geração. Poder-se-á dizer que permanecerá para sempre/
Quase que pode-se responder pela afirmativa, atendendo-se para o limitado alcance da inteligência humana, que não pode adquirir mais do que conhecimentos relativos.
Na minha próxima conferência ocupar-me-ei da América Pré-Histórica.
Restando-me unicamente agradecer ainda uma vez o pronunciado interesse que tendes tomado por estas despretensiosas preleções, feitas não para os competentes, que delas não carecem, mas para o povo.”
(o orador foi muito aplaudido ao deixar a tribuna).”.
Localização
- BITTENCOURT, Feliciano Pinheiro de. “Origem das espécies e América Pré-Histórica”. In: Conferências efetuadas na Escola Pública da Glória pelo Dr. Feliciano Pinheiro de Bittencourt. Rio de Janeiro: Papelaria Gonçalves Mendes & C, 1889, pp. 21-25. (BN)
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 563. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1195
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)