Conferência Popular da Glória nº 564.1

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 29/04/1888

Orador: Maria da Glória Loureiro de Andrade

Título: Jardineira da Infância

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“A série das conferências da Escola da Glória no corrente ano começou ontem de modo auspicioso. Pela primeira vez desde que se criaram as conferências apresentou-se naquela tribuna uma senhora brasileira, que tratou de assunto importante e prático.

A Sra. D. Maria da Glória Loureiro de Andrade, diretora do Externato Andrade, há pouco estabelecido nesta capital, tendo passado quatro anos nos Estados Unidos e frequentado ali as aulas de instrução primária e as escolas normais, julgou conveniente chamar a atenção das senhoras brasileiras e do público em geral para uma verdade que todos reconhecem teoricamente, mas que na prática anda entre nós esquecida, isto é, que é preciso aprender a ensinar.

Tal foi o objeto da conferência com que a Sra. D. Maria de Andrade conseguiu ontem prender, por mais de uma hora, a atenção das pessoas que concorreram à escola da Glória, e entre as quais folgamos de ver alguns professores e professoras.

Começou a conferente por uma breve exposição sobre os jardins da infância e o método de Froebel, demonstrando a necessidade de cultivar as faculdades humanas, segundo a ordem natural do seu desenvolvimento, e de educar os sentidos antes de exigir esforços da inteligência. Mostrou em que consistiam os dons de Froebel, verdadeiros brinquedos, bolas de madeira, cubos, réguas, pedaços de pão de diversos feitios, que as crianças recebem satisfeitas, que consideram sob diversos aspectos que insensivelmente lhes vão dando as noções de peso, de grandeza, de forma e muitas outras, ao mesmo tempo apurando e desenvolvendo os sentidos, e despertando a curiosidade e o desejo de saber. Para que este desejo não fique estéril, para que o brinquedo, pela monotonia ou prolongação, não se torne em aborrecimento, faz-se necessária a intervenção da educadora, da jardineira, a cujo cuidado e zelo foram entregues as crianças, que são flores animadas.

Daí elevou-se o conferente a consideração muito sensatas acerca da grande, da incalculável influencia que as educadoras exercem sobre o espírito e o caráter das crianças que hão de ser os cidadãos do futuro; daí a imensa responsabilidade que sobre ela pesa, e, portanto, a necessidade indeclinável de preparar-se a mestra com estudos especiais para o desempenho da sua importantíssima incumbência.

Pode-se com razão dizer que a mestra é a escola. Os vastos edifícios, os aparelhos, os livros, por melhores que sejam de nada valerão se não houver quem saiba dar-lhes aplicação. Não basta também que a mestra seja instruída; é preciso que saiba ensinar, que conheça a arte do ensino. Este ponto parece não ter merecido ainda entre nós a conveniente atenção. Na nossa Escola Normal ilustram-se professoras, mas deixa-se em olvido a parte prática, o ensino da educadora.

Há em geral no nosso povo indiferença pela instrução; pouco apreço se dá a quem se encarrega de ministrá-la, e por isso todos se julgam com direito de apresentar-se em público como mestres e exercem a profissão de educadores com grande embaraço, desde que podem obter dispensa de provar habilitações para tão difícil encargo.

É, entretanto, do educador, e do método pode ele seguido, que depende o destino de um país, porque o mestre é que forma o caráter das gerações que hão de dirigir esse país.

As impressões recebidas na infância, a direção que então se dá aos espíritos, as inteligências e aos corações, dominam a vida inteira do indivíduo.

O educador por excelência é a mestra, a mãe espiritual das crianças, que até os doze anos devem estar sob a direção delas, qualquer que seja o sexo dessas crianças.

As escolas mistas têm grandes vantagens e o preconceito que existiu contra as instituições deste gênero, não tem fundamento; a razão o ensina e a experiencia o tem demonstrado, não só em países estranhos, mas ainda entre nós, na Escola Normal, por exemplo.

Dos três aos sete anos as crianças devem ser educadas nos jardins da infância, onde não há livros, nem se exigem lições, nem regra, nem definições, mas somente se trata do desenvolvimento físico, intelectual e moral pela educação dos sentidos, pelos exemplos e pelos conselhos.

Quem estudar o estado da instrução e da educação no nosso país, verificará que estamos em grande atraso. É indispensável que apareçam novos abolicionistas, que preguem a cruzada para a abolição da mais negra das escravidões – a da ignorância.

A conferente terminou dirigindo um apelo às senhoras brasileiras, às mães de família para se alistarem nessa cruzada.

Ao deixar a tribuna, foi saudada com aplausos gerais e cumprimentada pelas pessoas presentes.”.

Localização

- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, Anno 66, n. 121, 30 abr. 1888. p.1 (resumo). Capturado em 31 maio 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/364568_07/20202

Ficha técnica

- Pesquisa: Yolanda Lopes de Melo da Silva, Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória nº 564.1. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1194

 


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