Conferência Popular da Glória nº 602
Data: 10/05/1891
Orador: Manoel Francisco Correia
Título: Riqueza irresponsável.
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Começaram anteontem estas conferências, que entram no 19º ano de existência, ocupando a tribuna o Conselheiro Manoel Francisco Correia, o mesmo orador que fizera a primeira das 603 já realizadas.
Eis o resumo da conferência:
Seria motivo de satisfação para o orador reabrir ainda este ano as conferências, se o fato não fosse infelizmente motivado por enfermidade do provecto orador Conselheiro Pereira da Silva, que, demais, vinha tratar de assuntos importantes, relativos ao 4º centenário do descobrimento da América, que promete ser celebrado de modo esplendido, desejosa a posteridade de reparar condignamente a falta que privou o imortal navegador Cristóvão Colombo de ligar seu nome ao continente que descobrira. Mas não fará muito esperar a sua palavra autorizada.
O assunto de que vai tratar é o da riqueza irresponsável, uma das faces da questão complexa, que se costuma chamar a questão social, a do proletariado. Refere-se à notícia que, com este título, deu o Jornal do Commercio na Gazetilha de 10 de janeiro, e aprecia as opiniões do Sr. Carnegie, “grande industrial norte-americano, que publicou há pouco uma espécie de evangelho da riqueza, no qual combate a chamada riquezas irresponsável, aquela que nenhuma lei alcança, que o proprietário não dispende, que o público ignora.”
Reserva para outras conferencias a apreciação das doutrinas de Gladstone, Cardeal Manning, Dr. Hermann Adler, e professor Price Hugues
Carnegie entende que a acumulação de riqueza para ser transmitida a herdeiras é uma vanglória. Ao orador parece que sofre fundada impugnação doutrina assim tão absoluta. Funda-se na natureza o amor da prole, e nem todos nascem validos. Deixar ao filho, que nasceu incapaz para a luta da vida, com que possa atenuar seu infortúnio, sem pesar aos outros, não é ceder a vanglória.
Carnegie entende que distribuir a riqueza em vida a obras de beneficência e de utilidade, reservando-se apenas o necessário para a manutenção da família é o mais elevado e o mais nobre não que se pode fazer da riqueza.
Certamente, diz o orador, não há quem não tenha palavras de merecido louvor aquele, que, em vida, aplica o que lhe sobra a obras de beneficência e de utilidade, sem colocar-se ou à família em condições precárias. Mas por que não merecerá igual louvor o que do mesmo modo procede por disposição de última vontade Acaso não são, entre outros, benfeitores da humanidade o norte-americano Peabody e o brasileiro Barão do Rio Doce
Felizmente a resolução do problema social que neste momento aflige a Europa, e põe em grave perigo a ordem pública na Bélgica, está entregue à meditação de varões os mais eminentes; já não estamos em frente de demagogos que não recuam diante de medidas atrozes e violentas.
O pontífice romano acaba de mostrar que o momentoso assunto reclama ser considerado em encíclica que já temos notícias de haver sido publicada, e que foi redigida depois de ouvidos os luminares da igreja. Sua Santidade, diz a notícia do Daily Chronicle, trata da constante atitude da igreja em favor dos pobres e das classes operárias, cujas questões revestem de dia para dia importância crescente.
Até onde os males que convulsionam a Europa podem atingir-nos. Cumpre não olhar superficialmente para este ponto. Em todo caso não é com leis draconianas que o socialismo, o qual apaga fronteiras, e esquece tradicionais ofensas, há de ser combatido. Ele resistirá até ao fim se se quiser subjugá-lo somente pela força. Irmãos conterão contra irmãos. Monumentos, que constituem a glória da humanidade, poderão desparecer, agitando vandálicas mãos o brandam do incêndio. A lei da perfectibilidade terá de abrir caminho sobre cadáveres.
Prever e prevenir, eis o que importa ao Brasil, para que até ele não se estendam as lavas do vulcão que ameaçam esterilizar o solo europeu.
Prever e prevenir, eis o que importa ao Brasil, adotando em tempo, antes que a pressão dos acontecimentos se imponha altivamente, as sensatas providências que lhe permitam realizar a esperança que ilustres sábios tem manifestado de que esta formosa porção do globo há de representar conspícuo e benéfico papel na história do mundo...”.
Localização
- Jornal do Brazil, Rio de Janeiro, Anno I, n. 34, p. 1, 12 mai. 1891. (resumo). Capturado em 12 jun. 2026. Online. Disponível na Internet: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/030015_01/146
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 602. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1217
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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