Conferência Popular da Glória nº 668
Data: 04/03/1900
Orador: Manoel Francisco Correia
Título: A conferência da Paz (cont.).
Aviso, íntegra ou resumo: Resumo
Texto na íntegra
“Realizou-se ontem, na escola Senador Correia a conferência popular n. 668. Continuando o conselheiro Correia a discorrer sobre a conferência da paz, disse, em resumo:
A questão de que vai agora ocupar-se é a do desarmamento, talvez a que principalmente influiu no ânimo do czar para promover a reunião da conferência de Haia. Começará repetindo com seus fervorosos aplausos à parte, relativa ao assunto, da circular do conde de Mourawieff, ministro dos negócios estrangeiros da Rússia, de 12 de agosto de 1898:
“O governo imperial acredita que o momento atual seria muito favorável ao exame, em discussão internacional, dos meios mais eficazes de garantir a todos os novos os benefícios de uma paz real e duradoura, e pôr antes de tudo termo ao desenvolvimento progressivo dos atuais armamentos. Centenas de milhões são empregados na compra de terríveis máquinas de destruição que, consideradas hoje como a última palavra da ciência, estão destinadas a perder amanhã todo o valor em consequência de novas descobertas desta espécie. Os armamentos de cada potência, quanto mais aumentam menos correspondem ao fim que os governos visam.
As crises econômicas, devidas em grande parte ao regime dos armamentos excessivos, e o perigo contínuo que se oculta neste amontoamento do material de guerra, transformam a paz armada de nossos dias em um fardo esmagador que os povos têm cada vez mais dificuldade em suportar. Parece, pois, evidente que, se esta situação se prolongar, chegar-se-á fatalmente ao próprio cataclismo que se procura afastar, e cujos horrores fazem estremecer desde já todo pensamento humano. Uma conferência para ocupar-se deste grave problema seria, com ajuda de Deus, feliz presságio para o século que vai começar.”
Eis aqui, eloquentemente assinalados, os males que oprimem as grandes potências. Despesas enormes em pura perda pelo abandono hoje, por imprestável, de custoso armamento ontem adquirido como o mais aperfeiçoado; e, o que pior é, correr atrás da paz chegando fatalmente é guerra pelo caminho trilhado. E o que é guerra? A circular o diz: um cataclismo cujos horrores se fazem estremecer desde já todo pensamento humano.
Um ajuste sobre a questão de armamento parecia impor-se no próprio interesse das potências, pelo menos para manter o status quo durante prazo convencionado, conforme a proposta da Rússia, assim concebida: “Acordo estipulando o não aumento, por prazo a fixar, dos efetivos atuais das forças armadas de mar e terra.”
Não a aprovaram as potências interessadas, tal a cegueira de predomínio!
A conferência dividiu o trabalho por três comissões. A primeira presidida pelo notável estadista belga, o Sr. Beernaert, coube a parte referente ao desarmamento. Como a resolveu?
Ouçamos o delegado da Rússia o Sr. F. de Martens, presidente da segunda comissão a que foi afeta a questão da Cruz Vermelha na guerra marítima:
“A primeira comissão demonstrou, após séria discussão, que ainda não era tempo, de fixar o limite das forças militares das nações em terra e no mar por meio de pacto internacional, devendo essa questão ser legada ao futuro, que tem de prestar-lhe atenção. Em nomes de todos os membros da conferência formulou ela duas resoluções, que vieram testemunhar que a questão do limite de armamento, suscitada pela Rússia, era unanimemente considerada a questão do dia, assunto para acurado estudo e criteriosa reflexão; mas que ainda era cedo para resolvê-la.”
Cedo para resolvê-la? Não, era tempo sem dúvida, observa o orador. O orgulho das nações o impediu, e também esperanças que para algumas terão de ser ilusórias, se feliz circunstância não arredar o cataclismo. Não foi, porém, de todo infrutífera a conferência da paz: revolucionou as ideias em sentido favorável à solução final. Preparou o futuro ambicionado. A resolução por ela adotada foi:
“O limite das forças militares, que atualmente tanto oprimem a sociedade, deve concorrer para o bem-estar moral e material da espécie humana.”
Neste melindroso assunto a civilização tem caminhado do “quem não é por mim é contra mim” (amigo ou inimigo), para o “quem não contra mim é por mim” (amigo, inimigo, neutro); daí para o si vis pacem para bellum, que está agora em sua maior intensidade. O futuro será a supressão da guerra entre as nações civilizadas, o arbitramento obrigatório. A força armada sofrerá considerável redução, o que resolve a questão do desarmamento; e, para bem geral, a indústria receberá poderoso reforço de grande número de braços vigorosos. Outro será o regime da sociedade, preparado pelos humanitários princípios triunfantes em Haia.
O instrumento da Providência para tanto benefício será o próximo balão dirigível.”
Localização
- O Paiz, Rio de Janeiro, Anno XVI, n.5628, 5 mar.1900, p.1 (resumo). Capturado em 13 jan. 2026 (online). Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/DocReader/178691_03/361
Ficha técnica
- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.
- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.
Forma de citação
Conferência Popular da Glória nº 668. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 jun.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=1280
Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – (http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br)