Conferência Popular da Glória s. n.

De Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970)
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Data: 17/03/1878

Orador: Manoel Francisco Correia

Título: Conveniência de manter a Escola de Humanidades criada pelo Instituto Farmacêutico (conferência especial)

Aviso, íntegra ou resumo: Resumo

Texto na íntegra

“O orador disse que foi um dos seus fins, na conferência de 10 do corrente mês, demonstrar que só o concurso da iniciativa particular poderia, nos dias que correm e nos tempos mais próximos, fazer com que a nobre causa da instrução popular tivesse, entre nós, sensível progresso; não permitindo os recursos oficiais dar-lhe de outra forma o impulso aliás indispensável para que o Brasil represente, como deve, papel conspícuo no século transformador que se avizinha.

Dependendo dos cidadãos, observou n’essa ocasião o orador, libertar o Brasil do infortúnio de ficar estacionário em matéria que tanto interessa ao futuro, era de esperar que eles não se mostrariam surdos aos clamores da pátria.

Acaso fomos os brasileiros feridos de alguma inferioridade no que respeita à dedicação pela causa pública?

Entretanto inquietava-se já o orador com a possibilidade de um fato, que será um extremo lastimável, o fechamento de um estabelecimento de instrução popular, devido à iniciativa particular, que ia entrar no quinto ano de existência, e que se tem assinalado por serviços relevantes à instrução primária e secundária de jovens talentosos e aplicados, mas pouco favorecidos da fortuna. Refere-se à Escola de Humanidades criada e mantida pelo benemérito Instituto Pharmacêutico do Rio de Janeiro, onde se distribuía gratuitamente até o ensino necessário para a matrícula nos cursos superiores.

Só motivos de força maior podem impelir o patriótico instituto à desesperação d’esta medida extrema.

Com sacrifícios não pequenos manteve ele, durante quatro anos, a escola de humanidades, que fez com que muitos jovens prestimosos pudessem apresentar-se nos exames gerais.

Faltam agora os recursos. A existência da escola de humanidades está seriamente ameaçada, triste é dizê-lo. Seus devotados sustentadores empenham os derradeiros esforços para salvar das ruínas o protetor edifício que tão custosamente levantaram. Estendem a mão ao teatro em nome do alfabeto.

Nunca se viu pedinte envolto em mais meritório manto. Se as almas generosas que se deleitam ligando à própria folgança o benefício estranho acudirem ao seu reclamo, o instituto farmacêutico terá aulas, livros, papel, penas; munições de que necessita para prosseguir na gloriosa luta travada contra a ignorância, que desgraçadamente possui vastos domínios n’este grande império, e que paga ao cárcere tão abundante quanto daninho tributo.

Professores desinteressados não lhe hão de falar. É título de honra para esta ilustrada capital, o de não ter-se n’ela fechado estabelecimento algum de ensino por falta de professores que sirvam gratuitamente.

Suponhamos, porém, que o Instituto vê-se tolhido de realizar a sua ideia, ou d’ela não colhe suprimentos suficientes.

Estaremos em frente de um mal irremediável? Não haverá como salvar a existência preciosa da escola de humanidades? Ficarão privados do alimento do espírito os jovens que a frequentavam?

O orador não quer crer que esta nódoa venha manchar a história do ensino na cidade do Rio de Janeiro.

Pois que! O instituto farmacêutico deseja manter, dirigir e auxiliar na medida de suas posses um estabelecimento de ensino de provada utilidade; os professores não recusam a continuação de seus valiosos serviços; afluem à matrícula alunos necessitados; e todas estas felizes e honrosas disposições hão de estacar esmorecidas por falta de salas para as aulas, de livros, mesas, papel e luz?! Esconder-se-á por desventura a mão poderosa que, estendendo-se, fará cair o orvalho vivificador sobre a arvore frutífera que a secura do indiferentismo ameaça destruir?! Estará extinta, como raça fóssil, a classe dos cidadãos ilustres que ainda proximamente chamavam sobre seus nomes as bençãos de pátria por valiosos donativos à instrução pública? Necessita acaso o instituto farmacêutico para manter a escola de humanidades de soma tão avultada que, diante do fabuloso algarismo, se petrifiquem os generosos incitamentos dos que buscam dignamente, pelo imã eficacíssimo da prática do bem, atrais sobre si e sobre os seus a proteção do céu?

Não; basta a quantia, relativamente pequena, que tantos varões piedosos louvavelmente despendem para custeamento de hospitais de beneficência durante um ou dois meses. Sobram um tesouro para larga messe de melhoramentos o que se tem despendido com festejos públicos.

Correrão caudalosas as águas para inundação dos prazeres, e desviar-se-ão esquivas do tênue regato para não alimentarem a fonte de atos que engrandecem e dignificam as nações?

A que deplorável estado de enervação houvéramos chegado de si tal sucedera! Se já faltassem os ímpetos viris que arrastam as almas elevadas à prática de ações promotoras do bem geral, daríamos o contristador espetáculo de uma nacionalidade nova infeccionada pelo vírus corrosivo dos povos em decadência. Se, indiferente ao mais cada um contrair-se ao que particularmente lhe toca, que sorte estará reservada aos interesses coletivos da sociedade?

E que ecos repetirão a voz queixosa do que sentir-se agravado?

Sem o laço elétrico que faz estremecer a comunhão quando ferido a direito de um despedaça-se a força das garantias sociais.

Não; não está, não pode estar extinto o sentimento do bem comum. As dificuldades com que luta o instituto farmacêutico para manter uma escola de manifesta e publica utilidade provém de não serem conhecidos os apuros em que se ele acha, e da modéstia com que oculta os bons serviços que tem prestado.

Não é numerosa a corporação dos farmacêuticos; e, entretanto, ocupa lugar distinto nas fileiras dos combatentes pela prosperidade da causa nacional, dando assim nobre exemplo, que o orador não dirá que importa censura ou exprobação, a outras classes mais numerosas e que dispõem de mais poderosos meios de ação.

Criou o Instituto Pharmacêutico, que tanto recomenda o nome de seus fundadores e mantenedores; promove o adiantamento e advoga a causa de sua classe em uma bem redigida Revista mensalmente publicada, que dá testemunho e sua ilustração e amor ao trabalho; fundou a Escola de Humanidades, que é um dos seus padrões de glória; e levantou uma tribuna de conferências públicas que tem sido e há de continuar a ser instrumento de progresso nacional.

Que outros títulos mais honrosos podem ser invocados para merecer o favor público?

Se, porém, todos os ouvidos ensurdecem diante de tão justos clamores; se todos os braços se conservarem inertes sob a opressão de algum gênio maléfico; se a nobre aspiração do Instituto Pharmacêutico não puder escapar à desventura da condenação à impotência, o orador atribuirá o fato à funestas circunstâncias de ocasião, não podendo capacitar-se de que tenha por origem o desanimador amesquinhamento do sentimento público.[1]

Será o sinistro augúrio de que ficaram sem substituição, depois da extinção da Ordem, as aulas gratuitas que hão de tornar saudosamente lembrado o Mosteiro de São Bento. Será o receio pelo desenvolvimento do patriótico Lyceu de Artes e Ofícios, instrumento de nosso progresso industrial e artístico. Mas não poderá significar a ameaça de permanente inércia e abandono, sem que sejam profundamente abaladas as lisonjeiras e altivas esperanças no futuro brilhante do Brasil, que lhe parece reservado pelo fato providencial de ter tomado o domínio português na América tão extraordinária extensão; de não ter podido ser quebrada essa majestosa unidade nos dias luxuosos para a metrópole; e de notável exceção! Conservar-se unido, depois da independência, todo o vasto território americano em que se fala a língua portuguesa.

Não se dirá ao menos que, em presença da mais que legítima pretensão do Instituto Pharmacêutico estão em questão três princípios salutares, alavancas poderosas para a grandeza do império; a iniciativa particular, o espírito de associação, a instrução popular.

O malogro de pretensão, tão favorecida por sua natureza, desalentará a crença no valor dos esforços individuais, na eficácia da iniciativa particular, que aliás a outros Estados tem cumulado de benefícios; tirará incentivos ao espírito de associação, que realiza prodígios na sociedade moderna; e fará retrogradar a instrução popular, um dos mais fortes esteios da civilização.

O orador regozija-se com o instituto por haver hasteado a bandeira d’essa trindade bendita. Sustente-a com denodo, animado pelo fogo d’aquele sentimento vivaz tão brilhantemente assinalado no último número da Tribuna Pharmacêutica, a coragem.

Se sucumbir abraçado com tão glorioso estandarte cairá heroicamente ao lado dos intrépidos trabalhadores que tem pelejado pela causa da humanidade.”.


[1] A Escola de Humanidades continua a ser mantida.

Localização

- Cardoso, José A. dos S. Conferências e outros trabalhos do Cons. Manoel Francisco Correia. Rio de Janeiro, Tip. Perseverança: Rio de Janeiro,1885, pp. 279- 284 (resumo). Capturado em 27 jan. 2026. Online. Disponível na Internet: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242774  

Ficha técnica

- Pesquisa: Aline de Souza Araújo França, Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca, Yolanda Lopes de Melo da Silva.

- Revisão: Ana Carolina de Azevedo Guedes, Mª Rachel Fróes da Fonseca.

Forma de citação

Conferência Popular da Glória s. n.. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1970). Capturado em 27 fev.. 2026. Online. Disponível na internet https://dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/wiki_dicionario/index.php?curid=811

 


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